06/05/2019

Ai, que saudade do meu ex

Ai, que saudade do meu ex

Nas últimas semanas, o governo Bolsonaro conseguiu proporcionar ao brasileiro mais um feito inimaginável: um sentimento de saudade do ex-ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez.

Vélez era um professor desconhecido, sem experiência executiva, que só chegou ao MEC – uma das pastas mais importantes do país, com o orçamento de R$ 122 bilhões – por ter tecido loas ao tuiteiro proctológico Olavo de Carvalho. Sua passagem pelo ministério, ainda que breve, deixou um inventário de decisões patéticas, como a ordem para que os alunos do fundamental fossem filmados repetindo o slogan de campanha de Jair Bolsonaro.

Mas por pior que fosse, Vélez Rodriguez tinha a qualidade, por assim dizer, de ser um extremista incompetente. Sua administração quixotesca deixou o Ministério da Educação paralisado – o que seria um péssimo cenário, não houvesse outro pior. O projeto de destruição de Jair Bolsonaro tem nos ensinado que mais vale um Vélez na mão do que dois Ricardo Salles ministrando.

O problema é que agora o MEC tem um Ricardo Salles pra chamar de seu. E o novo ministro da Educação, Abraham Weintraub – aquele que diz que os banqueiros são comunistas – já chegou ao posto anunciando um corte de 30% no orçamento de três universidades  federais: da Bahia (UFBA), de Brasília (UnB) e da Federal Fluminense (UFF), localizada em Niterói. De quebra, ainda ameaçou outras instituições com um recado metade infantil, metade nefasto: “Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas”.

A justificativa – como tem sido a praxe no governo que prometeu combater as ideologias –  foi puramente ideológica: Weintraub alegou que as universidades têm permitido que aconteçam “eventos políticos, manifestações partidárias ou festas inadequadas”. Afinal, não cabe falar em queda de rendimento, visto que a UnB e a UFBA subiram em um dos principais rankings de universidades do mundo, o da Times Higher Education, ocupando a 16ª e a 30ª posições entre as melhores da América Latina.

O plano de atacar essas universidades não nasceu da noite pro dia. O ministro e seu chefe já haviam falado em reduzir verbas dos cursos de filosofia e sociologia nas universidades públicas, alegando que o dever do governo é o de ensinar um ofício que “gere renda para a pessoa, bem-estar para a família, que melhore a sociedade em volta dela”. Só não mencionaram que apenas 2% dos alunos estudam essas disciplinas.

Apesar de ter trabalhado como professor (e de ter cometido autoplágio), Weintraub não sabia como funcionava o seu ministério – o que obviamente o qualificou para integrar o governo Bolsonaro. Não sabia, portanto, que a Constituição veda o bloqueio de verbas de universidades públicas por motivos ideológicos, por considerar que isso fere o princípio da autonomia universitária.

Mas depois de perceber que tomou uma decisão inconstitucional, Weintraub não recuou. Pelo contrário: decidiu cortar em 30% as verbas de todas as universidades federais do país – dinheiro usado para pagar gastos com água, luz, manutenção, segurança, limpeza, material de laboratório, insumos para hospitais universitários. Agora, existe o risco real (ou o seria o “projeto?”) de muitas universidades fecharem as portas.

A cruzada de Bolsonaro e Weintraub contra o “aparelhamento ideológico” pode nos tirar do mapa da produção científica. O Brasil integra hoje a lista dos quinze países com o maior número de estudos científicos – sendo que 90% dessa produção vem das universidades públicas. Para piorar, o MEC ainda anunciou um corte maior, de 36%, na verba Pedro II – uma escola federal, notável pela excelência, que tem 13 mil alunos em catorze unidades no estado do Rio de Janeiro. O reitor já avisou o colégio corre risco de fechar.

Num texto publicado na edição de maio da revista piauí, o cientista político Miguel Lago cunhou um termo interessante para descrever uma certa ala do governo Bolsonaro. São os ministrolls – ministros empossados com o intuito único de trollar a própria pasta. É o caso de Ernesto Araújo, o chanceler que defende uma diplomacia feita “com sangue nas veias”, de Ricardo Salles, que está empenhado em destruir o ICMBio e o Ibama e, mais recentemente, de Abraham Weintraub, o homem que nos fez ter saudades de Vélez Rodriguez.

Pra quem já disse “Fica, Temer!”, é só mais um passo pedir um “Volta, Vélez”…

Quer saber mais?
O podcast Café da Manhã explicou com detalhes os impactos da decisão do MEC, desmontando os argumentos apresentados pelo ministro até então

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