Memetoriais

Atento aos sinais

Ontem, 31 de março, foi a data do 55º aniversário do golpe militar que depôs o presidente João Goulart em 1964.

O golpe deu início uma ditadura de 21 anos, que resultou em cassação de direitos políticos, prisões arbitrárias, tortura e ao menos 434 casos confirmados de opositores do regime mortos ou desaparecidos pelas mãos do Estado. É claro que uma data assim tão grave não ia passar despercebida pelo comandante do Estado Maior das Redes Sociais do Brasil, o presidente Jair Bolsonaro.

Mas esta edição de hoje do MemeNews não vai perder tempo argumentando contra mais um factóide criado por quem brinca de presidir (vale lembrar que a ordem de Bolsonaro para celebrar o golpe de 1964 incomodou até a cúpula dos militares). Um Estado que tortura é um Estado que comete um crime gravíssimo contra a humanidade – e isso jamais deve ser comemorado. Caso encerrado.

Mas vale chamar a atenção, aqui, para o modus operandi do presidente, que foi capaz de sequestrar a pauta numa semana em que seu governo vivia um cataclisma, com direito a derrota na Câmara, crise no Ministério da Educação e perda de confiança do mercado.

Por isso, mais importante que investir tempo discutindo a tentativa mambembe de celebrar o golpe de 1964 é lembrar que o número de desempregados aumentou em 892 mil nos primeiros três meses do governo Bolsonaro (agora, são mais de 13 milhões de pessoas sem trabalho formal – e isso tem ligação, sim, com a forma pueril de atuação do presidente).

Mais importante do que discutir o que é golden shower é lembrar que a incompetência do ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, já tem repercutido no andar mais baixo da pirâmide social, com estudantes deixando de ir às aulas devido a falhas no sistema de financiamento do Fies.

Mais importante do que debater se Bolsonaro vai mudar a embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém é lembrar que o antiministro do Meio Ambiente tem feito de tudo para esvaziar o ICMBio e o Ibama, ou que o Incra paralisou o trabalho por não ter mais verba para executar a reforma agrária. (Spoiler: Bolsonaro obviamente não vai mudar a embaixada, porque isso poderia resultar num boicote dos países árabes, que compram 25% da carne bovina exportada pelo Brasil).

São tempos difíceis. Tempos em que o governador do Rio de Janeiro conta, sem nenhum constrangimento, que a polícia está usando snipers para abater pessoas que aparentam estar portando uma arma – o que é inconstitucional, dado que o Brasil não instituiu a pena de morte. Tempos em que o governador de São Paulo anuncia um corte de verbas, também sem constrangimento, que pode resultar na extinção de 31 mil vagas de um programa sociocultural de excelência.

Mesmo que tenha havido avanços na economia, o saldo da ditadura foi nefasto. Crianças foram torturadas, mais de 8 mil de indígenas foram mortos devido à abertura de rodovias, presos políticos foram executados com anuência dos generais. Isso jamais deve ser esquecido – principalmente agora, quando há um governo eleito democraticamente, mas com uma participação robusta de militares nos cargos mais gabaritados. Mas também é preciso estar atento aos sinais que correm por trás da cortina de fumaça criada pelo Twitter presidencial. Fiscalizar é escolher que brigas comprar.

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A ombudsman da Folha escreveu, ontem, que o jornal deve dar mais voz “àqueles que possam traduzir o resultado de governança incompetente no cotidiano produtivo da nação” do que “a autoridades destemperadas”

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Anderson, presente

Você sabe quem é Agatha Arnaus Reis? Agatha é advogada e funcionária do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. Para além disso, é viúva do motorista Anderson Gomes, assassinado um ano atrás, junto com a vereadora Marielle Franco. O casal viveu junto por sete anos, e teve um filho, Arthur, que já enfrentou quatro cirurgias para corrigir uma má formação dos órgãos.

Desde que teve sua vida mudada por um crime covarde, Agatha passou a morar com a mãe no bairro carioca de Inhaúma. Na última sexta-feira, ela e o filho voltaram para a casa em que residiam antes da tragédia, em Engenho da Rainha. O recomeço foi acompanhado pela repórter Ludmilla de Lima, do jornal O Globo.

Agatha contou que Anderson costumava trabalhar até 3h da manhã como motorista de Uber, e que às 7h já estava acordado para cuidar do bebê. Que a primeira palavra balbuciada pelo filho, hoje com quase três anos, foi “papai”. E que a vida do casal estava prestes a mudar, porque Anderson havia conseguido um emprego no aeroporto do Galeão, como mecânico de aeronaves.

Tudo foi interrompido na noite de 14 de março de 2018, quando Anderson e Marielle foram executados pelos ex-policiais militares Ronnie Lessa e Élcio Queiroz. Lessa e Queiroz estão presos em caráter preventivo, há duas semanas, após uma investigação primorosa da Polícia Civil e do Ministério Público do Estado tê-los identificado como autores do assassinato.

A pergunta sobre quem matou Marielle e Anderson parece estar resolvida. Resta saber, agora, quem encomendou a morte. Uma ponta da investigação é financeira: em outubro do ano passado, Lessa recebeu um depósito de R$ 100 mil em dinheiro na sua conta, de acordo com um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A transação foi anônima, mas o banco pode ter algum registro, em vídeo, da pessoa responsável por ter feito o depósito.

Outra ponta é política: meses atrás, o vereador Marcello Siciliano (PHS) foi acusado, numa delação feita à Polícia Federal, de ser o mandante do crime. Com o correr da investigação, surgiram indícios de que o depoimento havia sido forjado – e que ele atendia aos interesses do deputado estadual Domingos Brazão (ex-MDB), que disputa, com Siciliano, os votos do mesmo curral eleitoral.

A Polícia Civil ainda não sabe a motivação do crime. A teoria aventada pelo delegado Giniton Lages, de que a morte poderia ter sido motivada apenas por ódio, é frágil. Lages conduziu o caso até as prisões dos suspeitos, e foi substituído duas semanas atrás, em função de desentendimentos com o seu superior na hierarquia da Polícia Civil. A investigação segue agora sob a guarda do delegado Daniel Freitas da Rosa, que estava na Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense.

Achar o mandante do assassinato de Marielle e Anderson é fundamental, porque um crime contra uma representante do povo é um crime contra o próprio povo. Mas para além do drama político, existe um drama humano por trás dessa história. É o drama de Monica Benício, Marinete da Silva, Anielle Franco e Luyara Santos – viúva, mãe, irmã e filha de Marielle, respectivamente. É o drama de Agatha Arnaus Reis e Arthur Gomes – viúva e filho de Anderson.

Em uma carta póstuma endereçada a Anderson, Agatha escreveu: “Não há um dia que não pense em você, em tudo que não vivemos, não dissemos, me dói muito você não estar com o Arthur, dizendo: “Ele está tão gostoso hoje, amor”, e vendo a evolução e conquistas dele. (…) Esse tempo sem respostas foi muito doloroso. Ainda preciso saber por que isso aconteceu, quem fez e quem mandou, mas tenho fé de que essas respostas chegarão. Enquanto as aguardo, sigo com fé de que um dia nos encontraremos.”

Quer saber mais?
Leia a carta escrita por Agatha Arnaus Reis sobre o primeiro ano sem Anderson Gomes

Quer acompanhar a investigação?
A Delegacia de Homicídios está procurando a arma do crime no mar da Barra da Tijuca

Quer se manifestar?
Assine a petição que pede a solução do crime

Ou pressione a Secretaria de Segurança Pública do Rio
https://twitter.com/SegurancaRJ

O nome dela é…

Bettina. Você a encontrou no YouTube. E ela faz umas paradas – tipo transformar mil reais em um milhão no intervalo de três anos  -, que nem o seu gerente no banco não faz com você.

Vale uma explicação, na hipótese (pouco provável) de que o leitor ainda não tenha cruzado com o melhor meme de todos os tempos da última semana. Bettina é uma moça branca, loura e bem apessoada, que gravou um vídeo publicitário para o banco de investimentos Empiricus Research, onde trabalha. Na peça, ela explica que sua pouca idade – 22 anos – não a impediu de acumular R$ 1.042.000 através de investimentos no mercado de ações. “Simples assim”, completa.

A falta de tato social – não é lá muito novo uma pessoa branca ganhando seus milhões -, aliada à veiculação insistente do vídeo – ao menos 20 milhões de visualizações – levou Bettina ao Trending Topics do Twitter neste fim de semana. Pouco tardou para que descobrissem seu nome completo, e ao menos duas empresas das quais ela é sócia (uma, em parceria com os pais, com capital social de R$ 535 mil). Em seu blog sobre finanças na Folha, o professor do Insper Michael Viriato explicou, por A + B, que seria impossível Bettina ter transformado mil reais em um milhão no intervalo de três anos: “Investindo como o bilionário [Warren Buffett], a jovem teria levado mais de 35 anos para alcançar seu patrimônio atual.”

Para tentar conter o dano causado à funcionária (ou seria à própria imagem?), o banco para o qual Bettina trabalha gravou um segundo vídeo – sério, solene, em branco e preto -, onde ela reiterou que sua fortuna foi erguida por conta própria. O CEO da empresa também aproveitou para publicar um texto constrangedor no site Money Times, explicando que a chegada de sua funcionária ao Trending Topics era “um sinal inequívoco” de que a campanha havia funcionado (esqueceu de contar que a fama vinha acompanhada de um linchamento virtual à moça).

Mas o mote aqui não é falar de Bettina. O mote é discutir uma ideia torta, perversa, que toma a fortuna como medida de sucesso – isso num país que tem mais de 55 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza (ou seja, com cerca de R$ 400 por mês). Há algo de pornográfico – mais até do que o golden shower do presidente – quando um pessoa declara de forma pública e despudorada ter uma fortuna que a coloca entre 0,05% da população com mais de R$ 1 milhão em aplicações.

Talvez isso decorra de uma patologia econômica, política e social que transformou o mercado financeiro no Brasil num dos mais lucrativos no mundo. No ano passado, por exemplo, quando o país chegou a 12 milhões de desempregados, Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander lucraram, juntos, R$ 69 bilhões – 19,88% a mais que no ano anterior.

É a mesma patologia que fez a Vale – aquela que ignorou sinais claros de um possível rompimento da barragem em Brumadinho – ter um lucro líquido de R$ 11 bilhões até o terceiro semestre de 2018. Que a fez manter o pagamento de bônus aos seus executivos (apenas adiando a operação para o próximo ano), mesmo diante do descaso criminoso que resultou no assassinato de 308 pessoas.

A desigualdade no Brasil é uma endemia. O grupo dos 10% mais ricos concentra 43,1% do dinheiro, enquanto os 40% mais pobres retêm 12,3%. Quando Bettina conta, orgulhosa, que transformou R$ 1.520 em R$ 1 milhão, ela ignora que o seu aporte inicial já era maior que a renda per capita de uma família brasileira, que é de R$ 1.268. Ignora, também, que num país marcado pelo racismo, pessoas brancas recebem 79% a mais do que as pretas.

Vale, portanto, relembrar a frase de um famoso tuiteiro: “Não me sinto confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades.”  E a verdade, por mais dura que seja para quem vive na bolha do mercado financeiro, é que o Brasil não é uma Suíça.

É cruel apregoar o acúmulo num país que ocupa a nona posição em desigualdade de renda. Num cenário ideal, Bettina não invadiria a tela do computador para falar de quanto tem, mas do que fez, com o que tem, para tornar essa realidade mais justa. Oxalá cheguemos lá.

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Brasil, o teu nome é Dandara

Na semana passada, a Estação Primeira de Mangueira venceu o carnaval do Rio de Janeiro com um enredo primoroso, que contestava a História do Brasil contada pelo viés do homem branco, europeu, católico, inquisidor, escravocrata e machista que colonizou o país (e a narrativa historiográfica) nos últimos 500 anos.

Um carro alegórico trazia uma réplica, toda manchada de sangue, do Monumento às Bandeiras – aquele que homenageia os bandeirantes responsáveis  explorar o interior de São Paulo (e por dizimar milhares de indígenas no caminho “rumo ao progresso”). Outro trazia imagens de velhos “heróis” do militarismo e da religiosidade – Duque de Caxias, Padre Anchieta, Floriano Peixoto – sobre pilhas de ossos. “Tem sangue retinto pisado / Atrás do herói emoldurado. Mulheres, tamoios, mulatos, / Eu quero um país que não está no retrato”, dizia o samba.

A vitória de um enredo que desvendava “o avesso do mesmo lugar”, exaltando tamoios, mulatos e mulheres coincidiu com a celebração do Dia Internacional da Mulher, ocorrido na última sexta-feira, 8 de março. Embora componham 50,8% da população do país, as mulheres são apenas 15% do Congressos Nacional (tanto que o primeiro banheiro feminino no plenário do Senado só foi construído TRÊS ANOS ATRÁS). Elas têm mais escolaridade – ultrapassam em 37,9% o número de homens com formação universitária -, mas ganham em média, 20,5%  a menos quando o assunto é salário.

Os dados da desigualdade entre gêneros e da falta de representatividade feminina são infinitos. Em função disso – e do 8 de março -, esta semana do MemeNews será toda dedicada a notícias de viés feminista.

Cada uma das notas publicadas nos próximos dias será pautada por uma mulher. A deputada federal Talíria Petrone falará do disque 180, que recebe denúncias de mulheres em situação de violência; a professora e transativista Danieli Balbi vai falar sobre o impacto que a reforma da previdência poderá causar às mulheres; a pesquisadora Michele dos Ramos levantará o debate sobre posse de armas e Lei Maria da Penha. Na sexta-feira, a edição especial vai ficar a cargo da Themis, uma ONG especializada em gênero, justiça e direitos humanos.

Por fim, vale lembrar que esta semana que se inicia coincide, também, com um marco trágico: um ano do assassinato – ainda sem respostas – da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes. Marielle será lembrada em uma nota a ser publicada na quarta-feira, como de praxe, e no editorial da próxima segunda.

O manifesto em forma de samba cantado pela Mangueira lembrou que “chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês” (para quem não conhece, Luísa Mahin foi uma mulher de origem africana que participou ativamente em revoltas de escravos na Bahia no século XIX – entre elas, a Revolta do Malês).

Com toda humildade, MemeNews pede licença para parafrasear o samba da Mangueira, lembrando que também chegou a vez de ouvir as Talírias, Letícias, Antônias, Cecílias, Micheles, Danis, Juanas, Fernandas e outras milhares de mulheres que ajudam a escrever a história desse país. E que essa vez dure para sempre.

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O carnavalesco Leandro Vieira, da Mangueira, disse que o desfile foi “um recado para a sociedade brasileira”

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Reveja o desfile da Mangueira

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