Memetoriais

O nome dela é…

Bettina. Você a encontrou no YouTube. E ela faz umas paradas – tipo transformar mil reais em um milhão no intervalo de três anos  -, que nem o seu gerente no banco não faz com você.

Vale uma explicação, na hipótese (pouco provável) de que o leitor ainda não tenha cruzado com o melhor meme de todos os tempos da última semana. Bettina é uma moça branca, loura e bem apessoada, que gravou um vídeo publicitário para o banco de investimentos Empiricus Research, onde trabalha. Na peça, ela explica que sua pouca idade – 22 anos – não a impediu de acumular R$ 1.042.000 através de investimentos no mercado de ações. “Simples assim”, completa.

A falta de tato social – não é lá muito novo uma pessoa branca ganhando seus milhões -, aliada à veiculação insistente do vídeo – ao menos 20 milhões de visualizações – levou Bettina ao Trending Topics do Twitter neste fim de semana. Pouco tardou para que descobrissem seu nome completo, e ao menos duas empresas das quais ela é sócia (uma, em parceria com os pais, com capital social de R$ 535 mil). Em seu blog sobre finanças na Folha, o professor do Insper Michael Viriato explicou, por A + B, que seria impossível Bettina ter transformado mil reais em um milhão no intervalo de três anos: “Investindo como o bilionário [Warren Buffett], a jovem teria levado mais de 35 anos para alcançar seu patrimônio atual.”

Para tentar conter o dano causado à funcionária (ou seria à própria imagem?), o banco para o qual Bettina trabalha gravou um segundo vídeo – sério, solene, em branco e preto -, onde ela reiterou que sua fortuna foi erguida por conta própria. O CEO da empresa também aproveitou para publicar um texto constrangedor no site Money Times, explicando que a chegada de sua funcionária ao Trending Topics era “um sinal inequívoco” de que a campanha havia funcionado (esqueceu de contar que a fama vinha acompanhada de um linchamento virtual à moça).

Mas o mote aqui não é falar de Bettina. O mote é discutir uma ideia torta, perversa, que toma a fortuna como medida de sucesso – isso num país que tem mais de 55 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza (ou seja, com cerca de R$ 400 por mês). Há algo de pornográfico – mais até do que o golden shower do presidente – quando um pessoa declara de forma pública e despudorada ter uma fortuna que a coloca entre 0,05% da população com mais de R$ 1 milhão em aplicações.

Talvez isso decorra de uma patologia econômica, política e social que transformou o mercado financeiro no Brasil num dos mais lucrativos no mundo. No ano passado, por exemplo, quando o país chegou a 12 milhões de desempregados, Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander lucraram, juntos, R$ 69 bilhões – 19,88% a mais que no ano anterior.

É a mesma patologia que fez a Vale – aquela que ignorou sinais claros de um possível rompimento da barragem em Brumadinho – ter um lucro líquido de R$ 11 bilhões até o terceiro semestre de 2018. Que a fez manter o pagamento de bônus aos seus executivos (apenas adiando a operação para o próximo ano), mesmo diante do descaso criminoso que resultou no assassinato de 308 pessoas.

A desigualdade no Brasil é uma endemia. O grupo dos 10% mais ricos concentra 43,1% do dinheiro, enquanto os 40% mais pobres retêm 12,3%. Quando Bettina conta, orgulhosa, que transformou R$ 1.520 em R$ 1 milhão, ela ignora que o seu aporte inicial já era maior que a renda per capita de uma família brasileira, que é de R$ 1.268. Ignora, também, que num país marcado pelo racismo, pessoas brancas recebem 79% a mais do que as pretas.

Vale, portanto, relembrar a frase de um famoso tuiteiro: “Não me sinto confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades.”  E a verdade, por mais dura que seja para quem vive na bolha do mercado financeiro, é que o Brasil não é uma Suíça.

É cruel apregoar o acúmulo num país que ocupa a nona posição em desigualdade de renda. Num cenário ideal, Bettina não invadiria a tela do computador para falar de quanto tem, mas do que fez, com o que tem, para tornar essa realidade mais justa. Oxalá cheguemos lá.

Quer saber mais?
A crença das pessoas na meritocracia é ilusória, e pode nos fazer mal

Quer entender melhor a desigualdade?
Assista a essa palestra com o epidemiologista Richard Wilkinson

Quer acompanhar a discussão sobre a pobreza no Brasil?
O podcast Mamilos convidou especialistas para discutir como vencer a miséria no país

Brasil, o teu nome é Dandara

Na semana passada, a Estação Primeira de Mangueira venceu o carnaval do Rio de Janeiro com um enredo primoroso, que contestava a História do Brasil contada pelo viés do homem branco, europeu, católico, inquisidor, escravocrata e machista que colonizou o país (e a narrativa historiográfica) nos últimos 500 anos.

Um carro alegórico trazia uma réplica, toda manchada de sangue, do Monumento às Bandeiras – aquele que homenageia os bandeirantes responsáveis  explorar o interior de São Paulo (e por dizimar milhares de indígenas no caminho “rumo ao progresso”). Outro trazia imagens de velhos “heróis” do militarismo e da religiosidade – Duque de Caxias, Padre Anchieta, Floriano Peixoto – sobre pilhas de ossos. “Tem sangue retinto pisado / Atrás do herói emoldurado. Mulheres, tamoios, mulatos, / Eu quero um país que não está no retrato”, dizia o samba.

A vitória de um enredo que desvendava “o avesso do mesmo lugar”, exaltando tamoios, mulatos e mulheres coincidiu com a celebração do Dia Internacional da Mulher, ocorrido na última sexta-feira, 8 de março. Embora componham 50,8% da população do país, as mulheres são apenas 15% do Congressos Nacional (tanto que o primeiro banheiro feminino no plenário do Senado só foi construído TRÊS ANOS ATRÁS). Elas têm mais escolaridade – ultrapassam em 37,9% o número de homens com formação universitária -, mas ganham em média, 20,5%  a menos quando o assunto é salário.

Os dados da desigualdade entre gêneros e da falta de representatividade feminina são infinitos. Em função disso – e do 8 de março -, esta semana do MemeNews será toda dedicada a notícias de viés feminista.

Cada uma das notas publicadas nos próximos dias será pautada por uma mulher. A deputada federal Talíria Petrone falará do disque 180, que recebe denúncias de mulheres em situação de violência; a professora e transativista Danieli Balbi vai falar sobre o impacto que a reforma da previdência poderá causar às mulheres; a pesquisadora Michele dos Ramos levantará o debate sobre posse de armas e Lei Maria da Penha. Na sexta-feira, a edição especial vai ficar a cargo da Themis, uma ONG especializada em gênero, justiça e direitos humanos.

Por fim, vale lembrar que esta semana que se inicia coincide, também, com um marco trágico: um ano do assassinato – ainda sem respostas – da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes. Marielle será lembrada em uma nota a ser publicada na quarta-feira, como de praxe, e no editorial da próxima segunda.

O manifesto em forma de samba cantado pela Mangueira lembrou que “chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês” (para quem não conhece, Luísa Mahin foi uma mulher de origem africana que participou ativamente em revoltas de escravos na Bahia no século XIX – entre elas, a Revolta do Malês).

Com toda humildade, MemeNews pede licença para parafrasear o samba da Mangueira, lembrando que também chegou a vez de ouvir as Talírias, Letícias, Antônias, Cecílias, Micheles, Danis, Juanas, Fernandas e outras milhares de mulheres que ajudam a escrever a história desse país. E que essa vez dure para sempre.

Quer saber mais?
O carnavalesco Leandro Vieira, da Mangueira, disse que o desfile foi “um recado para a sociedade brasileira”

Quer ver mais?
Reveja o desfile da Mangueira

MemeNews é financiado pela Open Society Foundations, por meio de um projeto que pretende unir humor e mudanças sociais.