1964 é aquis

06/08/2019
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Um grave precedente

No domingo, um torcedor foi algemado e detido na Arena Corinthians, no jogo do alvinegro contra o Palmeiras, depois de se manifestar contra Jair Bolsonaro. Rogério Lemes gritava frases à la Olavo de Carvalho – só que contrárias a Bolsonaro -, durante a execução do Hino Nacional, quando foi abordado por dois policiais, que o levaram ao posto do Juizado Especial Criminal dentro do estádio. A Secretaria de Segurança disse que Lemes não foi preso, mas conduzido ao Jecrim para “preservar (sua) integridade física”, já que ele causara “animosidade com outros torcedores, com potencial de gerar tumulto e violência generalizada” ao criticar o presidente da República. Segundo Lemes, os policiais o imobilizaram, deram-lhe um mata-leão e vasculharam o conteúdo do seu celular.

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Também em São Paulo, policiais militares interromperam uma reunião do PSOL, pedindo os documentos dos responsáveis pelo evento

Sem crime, com castigo

Weslley Rodrigues é um jovem de 21 anos do Complexo do Alemão, que trabalha de segunda a sábado, entre 9h30 e 18h, num trailer de manutenção e reparos de aparelhos telefônicos. De noite, cursa o terceiro ano do ensino médio em um colégio estadual. Pois na última terça-feira, 30 de julho, durante uma operação policial, Rodrigues entrou numa loja para se esconder dos tiros. Logo foi abordado por policiais, que o acusaram de ser dono de um rádio-comunicador encontrado no lixo (o aparelho seria usado na comunicação com traficantes). Mesmo negando a acusação, o rapaz, que é negro, foi preso em flagrante, apenas com base no testemunho dos policiais. Para piorar, o juiz Antonio Luiz da Fonseca Lucchese, da 29ª Vara Criminal do Rio, converteu o flagrante em prisão preventiva (ou seja, sem prazo de validade), sob a alegação de que os crimes imputados ao jovem – que nunca havia tido passagem pela polícia –  eram graves. A família acusa a polícia de ter forjado a prisão.

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A mãe de Rodrigues gravou um depoimento, em que mostra uma declaração da escola e a carteira de trabalho do filho

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Weslley Rodrigues é mais um dos mais de 300 mil brasileiros presos sem julgamento

Ministrão de Noronha

O oceanógrafo José Martins da Silva Júnior foi transferido à revelia do posto que ocupava no ICMBio de Fernando de Noronha. A história da sua exoneração, como tudo que envolve o antiministro do Meio Ambiente, perpassa um projeto de destruição. Em fevereiro, Ricardo Salles esteve no arquipélago, reunindo-se com empresários locais. Para o grupo, Martins atrapalhava o desenvolvimento da economia ao fazer valer certas leis que limitavam o ordenamento territorial da ilha. Em julho, a transferência do oceanógrafo estava concluída. Silva Júnior, que é especialista em golfinhos, foi mandado para a Floresta Nacional de Negreiros, no sertão de Pernambuco, a mais de 500 quilômetros do mar. Seu caso é um microcosmo da política de combate ao conhecimento que também resultou, uma semana atrás, na exoneração de Ricardo Galvão, diretor do Inpe, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

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E por falar em Inpe, o instituto, que era respeitado internacionalmente pelo seu corpo técnico, agora vai ser gerido por um militar

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