Bolsonaro: modo de usars

01/04/2019
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Atento aos sinais

Ontem, 31 de março, foi a data do 55º aniversário do golpe militar que depôs o presidente João Goulart em 1964.

O golpe deu início uma ditadura de 21 anos, que resultou em cassação de direitos políticos, prisões arbitrárias, tortura e ao menos 434 casos confirmados de opositores do regime mortos ou desaparecidos pelas mãos do Estado. É claro que uma data assim tão grave não ia passar despercebida pelo comandante do Estado Maior das Redes Sociais do Brasil, o presidente Jair Bolsonaro.

Mas esta edição de hoje do MemeNews não vai perder tempo argumentando contra mais um factóide criado por quem brinca de presidir (vale lembrar que a ordem de Bolsonaro para celebrar o golpe de 1964 incomodou até a cúpula dos militares). Um Estado que tortura é um Estado que comete um crime gravíssimo contra a humanidade – e isso jamais deve ser comemorado. Caso encerrado.

Mas vale chamar a atenção, aqui, para o modus operandi do presidente, que foi capaz de sequestrar a pauta numa semana em que seu governo vivia um cataclisma, com direito a derrota na Câmara, crise no Ministério da Educação e perda de confiança do mercado.

Por isso, mais importante que investir tempo discutindo a tentativa mambembe de celebrar o golpe de 1964 é lembrar que o número de desempregados aumentou em 892 mil nos primeiros três meses do governo Bolsonaro (agora, são mais de 13 milhões de pessoas sem trabalho formal – e isso tem ligação, sim, com a forma pueril de atuação do presidente).

Mais importante do que discutir o que é golden shower é lembrar que a incompetência do ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, já tem repercutido no andar mais baixo da pirâmide social, com estudantes deixando de ir às aulas devido a falhas no sistema de financiamento do Fies.

Mais importante do que debater se Bolsonaro vai mudar a embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém é lembrar que o antiministro do Meio Ambiente tem feito de tudo para esvaziar o ICMBio e o Ibama, ou que o Incra paralisou o trabalho por não ter mais verba para executar a reforma agrária. (Spoiler: Bolsonaro obviamente não vai mudar a embaixada, porque isso poderia resultar num boicote dos países árabes, que compram 25% da carne bovina exportada pelo Brasil).

São tempos difíceis. Tempos em que o governador do Rio de Janeiro conta, sem nenhum constrangimento, que a polícia está usando snipers para abater pessoas que aparentam estar portando uma arma – o que é inconstitucional, dado que o Brasil não instituiu a pena de morte. Tempos em que o governador de São Paulo anuncia um corte de verbas, também sem constrangimento, que pode resultar na extinção de 31 mil vagas de um programa sociocultural de excelência.

Mesmo que tenha havido avanços na economia, o saldo da ditadura foi nefasto. Crianças foram torturadas, mais de 8 mil de indígenas foram mortos devido à abertura de rodovias, presos políticos foram executados com anuência dos generais. Isso jamais deve ser esquecido – principalmente agora, quando há um governo eleito democraticamente, mas com uma participação robusta de militares nos cargos mais gabaritados. Mas também é preciso estar atento aos sinais que correm por trás da cortina de fumaça criada pelo Twitter presidencial. Fiscalizar é escolher que brigas comprar.

Quer saber mais?
A ombudsman da Folha escreveu, ontem, que o jornal deve dar mais voz “àqueles que possam traduzir o resultado de governança incompetente no cotidiano produtivo da nação” do que “a autoridades destemperadas”

Quer entender melhor como foi a violência na ditadura?
A Comissão Nacional da Verdade preparou três relatórios sobre o período

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