Brasil tem menos crack do que se imaginavas

02/04/2019
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Falsa epidemia

No final de 2016, a Fundação Oswaldo Cruz concluiu o 3º Levantamento Nacional Domiciliar sobre o Uso de Drogas. O relatório, montado a partir de 16 mil entrevistas, mostrou que o Brasil não vive uma epidemia de drogas. Pelo contrário: o número de pessoas que usaram crack uma vez na vida caiu de 1,3%, em 2012, para 0,9% (e só 0,3% havia feito uso naquele ano). A pesquisa, encomendada pelo Ministério da Justiça, nunca chegou a ser divulgada. “A hipótese mais provável”, escreveu a repórter Inês Garçoni, ontem no Intercept Brasil, “é que o governo federal censurou os números porque eles revelavam o oposto do que a gestão de Michel Temer queria mostrar – e que o governo Bolsonaro continua a sustentar.” A tese de que o Brasil passa por uma epidemia é defendida pelo ministro da Cidadania, Osmar Terra, que chegou a propor a internação compulsória quando era senador. Em março, Terra e a ministra da Família, Damares Alves, assinaram um contrato para a construção de 216 novas comunidades terapêuticas, fortalecendo uma política que oferece basicamente reclusão e abstinência.

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Existem mais de 2 mil comunidades terapêuticas no Brasil, e a maioria delas é ligada à igrejas católicas e evangélicas

Bingo “não ideológico” na ONU

Em março aconteceu a 63ª sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher da ONU, o maior encontro da organização sobre direitos femininos. O Brasil esteve presente, praticando a já conhecida política externa “sem ideologia”. A exemplo de todos os países presentes, votou pela aprovação do documento apresentado ao fim da conferência. Mas a exemplo de mais ninguém, fez ressalvas ao texto, posicionando-se contra menções ao direito reprodutivo das mulheres, sob a alegação de que as expressões usadas poderiam dar margem à “promoção do aborto” (essa posição levou a deputada Sâmia Bomfim, do PSOL de São Paulo, a questionar duramente o chanceler Ernesto Araújo na Câmara). O Brasil também se posicionou contra um trecho que mencionava mudanças climáticas, rejeitou outro sobre reconhecimento de imigrantes, e criticou o uso das expressões “gênero e sexo”, completando a cartela de bingo do governo Bolsonaro. O documento não é vinculante, mas serve de orientação aos países que fazem parte do grupo.

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Pergunte ao chanceler Ernesto Araújo a respeito das posições tomadas no encontro da ONU
https://twitter.com/ernestofaraujo

Ataques ao Xingu

Nos dois primeiros meses de 2019, a Bacia do Xingu perdeu 8.500 hectares de floresta, um aumento de 54% em relação ao desmatamento no mesmo período do ano passado. A Terra Indígena Ituna/Itatá, no Pará, teve 453 hectares transformados numa estrada ilegal, embora a área seja restrita à circulação de indígenas (estradas assim costumam ser utilizadas por grileiros e madeireiros). Na parte da bacia que fica no Mato Grosso, o dano foi maior, com um aumento de 204% do desmatamento – e deve piorar, já que existe um projeto de construção de uma ferrovia ligando a região da soja no Mato Grosso aos portos do Pará. Vale lembrar que o anitiministro Meio Ambiente é a favor da construção de ferrovias em área protegidas.

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Entenda os impactos ambientais que a EF-170, a Ferrogrão, pode causar

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