Brumadinho, um mês: o que a Vale sabias

25/02/2019
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Crônica de um crime anunciado

Pode ter sido por conta dos áudios do presidente, ou do pacote anticrime (sem caixa 2) do ministro Sergio Moro, ou quem sabe do cataclisma político e humanitário causado pelo governo Maduro na Venezuela. Fato é que hoje completa um mês do crime da Vale em Brumadinho, e a impressão que se tem é de que a história começa a se perder no tempo.

O crime resultou em pelo menos 310 mortes – 177 já confirmadas, e 133 ainda sem corpos. Como Brumadinho tem 36 mil habitantes, isso significou o fim repentino de quase 1% da população. Lucimar Ferreira da Cunha perdeu a filha, o genro e um neto. Todos na cidade conhecem alguém que está entre as vítimas.

A barragem do Córrego do Feijão represava 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos, que já vinham vazando, em pequenas doses, há tempos. A Vale sabia dos riscos, pelo menos desde outubro do ano passado, e pouco fez para evitar uma tragédia.

Na verdade tomou uma atitude, sim. Calculou o prejuízo que uma eventual ruptura da barragem traria. O resultado do estudo – uma estimativa de ao menos cem mortos e R$ 5,6 bilhões em prejuízos – não a convenceu a parar com as atividades da mina, talvez porque a Vale esteja vacinada contra punições do Estado. Antes do novo desastre, devia ao menos R$ 139 milhões em multas do Ibama –  e só havia aprovisionado R$ 13 milhões para pagamento de ações judiciais neste ano.

A lama que tirou vidas, assassinou um ecossistema, destruiu casas – são ao menos 138 desabrigados – também começa a deixar marcas invisíveis. Exames feitos nos bombeiros que estão atuando nos resgates mostrou que quatro deles têm níveis altos de alumínio ou cobre no corpo. A previsão é de que os níveis voltem ao normal depois que os bombeiros deixarem a lama. Mas e para quem mora em Brumadinho?

A lama que vazou para o Rio Paraopeba já viajou 250 quilômetros, deixando um rastro de morte e contaminando a água com ferro, chumbo e mercúrio – o que levou o governo de Minas Gerais a restringir a captação em pelo menos 16 municípios. A curto prazo, a água contaminada pode causar enjoo, vômito, dor de cabeça, febre e diarreia. O efeito a longo prazo está sendo estudado.

Por ora, a Vale fez um acordo com o MInistério Público do Trabalho para pagar as despesas das vítimas, e se comprometeu a desativar barragens parecidas com a de Brumadinho (do tipo a montante). Mas como confiar numa empresa reincidente?  Como acreditar que haverá reparação às novas vítimas, se só 16% dos 54 mil pedidos de indenização feitos após a tragédia de Mariana foram pagos?

Nesta semana, um estudo apresentado pela Universidade do Estado do Rio De Janeiro concluiu que o recife de Abrolhos, a 250 quilômetros da costa, está contaminado pela lama tóxica da Samarco. Já seria suficientemente trágico. Acontece que a toxicidade da indústria mineradora, que tem a Vale como carro-chefe, deixa rastro não apenas na natureza – e nas centenas de vidas por ela arrasada. Deixa rastro na política (em 2014, 102 deputados eleitos por Minas Gerais foram bancados por mineradoras), na Justiça (nenhum executivo foi condenado pelo crime de Mariana) e na sensação geral de impunidade.

Não deixemos esse novo crime cair no esquecimento.

Quer se manifestar?
Assine uma petição que exige a reparação por Mariana e Brumadinho

Ou entre em contato com o Ministério Público de Minas Gerais
sosbrumadinho@mpmg.mp.br

Quer saber mais?
Depois de Brumadinho a Vale deslocou 125 pessoas em áreas próximas de outras barragens

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