Doação de $ em dose alopáticas

20/02/2019
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Vide bula

A lei que proibiu empresas de doarem dinheiro para campanhas eleitorais criou um efeito colateral nas últimas eleições, com executivos da indústria farmacêutica doando R$ 13 milhões para 356 candidatos. A lista de beneficiados conta com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), o deputado federal Julio Cesar (PRB-DF) e o senador derrotado Cristovam Buarque (PPS-DF). O caso mais gritante foi do senador Eduardo Gomes (MDB-TO), que recebeu R$ 1,5 milhão de Ogari Pacheco, fundador do laboratório Cristália e – surpresa! – seu suplente no Senado. O lobby das farmacêuticas tem motivação clara: a indústria fatura R$ 19 bilhões com o SUS (aproximadamente 30% da sua receita) e conta com isenções fiscais da ordem de R$ 9,5 bilhões. Uma empresa do ramo, a Hypera, foi investigada pela Lava-Jato, e admitiu ter doado R$ 30 milhões a políticos ligados a Eduardo Cunha, para facilitar a aprovação de um projeto que liberasse a venda de medicamentos sem prescrição em supermercados.

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Ogari Pacheco nega que haja conflito de interesses entre sua atividade profissional e seu “subgabinete” no Senado

A carne mais barata

Na semana passada, o segurança Davi Ricardo Moreira Amâncio sufocou até a morte o estudante Pedro Gonzaga – que era negro e dependente químico – num supermercado da rede Extra, no Rio de Janeiro, ignorando os apelos da mãe do rapaz, que testemunhou a cena. Amâncio estava no exercício ilegal da profissão: em dezembro de 2017, havia sido condenado a três meses de prisão por agredir sua então companheira – e pessoas com antecedentes criminais não podem trabalhar como segurança. Em protesto contra a morte de Pedro Gonzaga, mais de 4 mil pessoas foram para a porta de supermercados Extra em cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Fortaleza. No Rio de Janeiro, 400 pessoas se reuniram diante do local da morte, para protestar contra o genocídio do povo negro e lembrar, em coro, que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”.

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A cada 23 minutos um jovem negro morre no Brasil

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Marielle e seu legado

O Baobá – Fundo para Equidade Racial, lançou no começo do mês o Programa Marielle Franco de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras. A ideia é aumentar a presença de mulheres negras em cargos de chefia nos setores público e privado. De acordo com o IBGE, 26% da população é formada por mulheres negras ou pardas, mas apenas 10% dos cargos gerenciais são ocupadas por elas. O problema não é apenas nacional: na lista dos 500 CEOs mais influentes do mundo, feita no ano passado pela revista Fortune, 24 eram mulheres – e nenhuma delas era negra. O programa, com início marcado para o segundo semestre, terá duração de cinco anos; o cronograma com as principais atividades será apresentado em março.

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Marielle Franco também inspirou uma bolsa de estudos em uma universidade norte-americana

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