Em memória de Anderson Gomess

25/03/2019
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Anderson, presente

Você sabe quem é Agatha Arnaus Reis? Agatha é advogada e funcionária do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. Para além disso, é viúva do motorista Anderson Gomes, assassinado um ano atrás, junto com a vereadora Marielle Franco. O casal viveu junto por sete anos, e teve um filho, Arthur, que já enfrentou quatro cirurgias para corrigir uma má formação dos órgãos.

Desde que teve sua vida mudada por um crime covarde, Agatha passou a morar com a mãe no bairro carioca de Inhaúma. Na última sexta-feira, ela e o filho voltaram para a casa em que residiam antes da tragédia, em Engenho da Rainha. O recomeço foi acompanhado pela repórter Ludmilla de Lima, do jornal O Globo.

Agatha contou que Anderson costumava trabalhar até 3h da manhã como motorista de Uber, e que às 7h já estava acordado para cuidar do bebê. Que a primeira palavra balbuciada pelo filho, hoje com quase três anos, foi “papai”. E que a vida do casal estava prestes a mudar, porque Anderson havia conseguido um emprego no aeroporto do Galeão, como mecânico de aeronaves.

Tudo foi interrompido na noite de 14 de março de 2018, quando Anderson e Marielle foram executados pelos ex-policiais militares Ronnie Lessa e Élcio Queiroz. Lessa e Queiroz estão presos em caráter preventivo, há duas semanas, após uma investigação primorosa da Polícia Civil e do Ministério Público do Estado tê-los identificado como autores do assassinato.

A pergunta sobre quem matou Marielle e Anderson parece estar resolvida. Resta saber, agora, quem encomendou a morte. Uma ponta da investigação é financeira: em outubro do ano passado, Lessa recebeu um depósito de R$ 100 mil em dinheiro na sua conta, de acordo com um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A transação foi anônima, mas o banco pode ter algum registro, em vídeo, da pessoa responsável por ter feito o depósito.

Outra ponta é política: meses atrás, o vereador Marcello Siciliano (PHS) foi acusado, numa delação feita à Polícia Federal, de ser o mandante do crime. Com o correr da investigação, surgiram indícios de que o depoimento havia sido forjado – e que ele atendia aos interesses do deputado estadual Domingos Brazão (ex-MDB), que disputa, com Siciliano, os votos do mesmo curral eleitoral.

A Polícia Civil ainda não sabe a motivação do crime. A teoria aventada pelo delegado Giniton Lages, de que a morte poderia ter sido motivada apenas por ódio, é frágil. Lages conduziu o caso até as prisões dos suspeitos, e foi substituído duas semanas atrás, em função de desentendimentos com o seu superior na hierarquia da Polícia Civil. A investigação segue agora sob a guarda do delegado Daniel Freitas da Rosa, que estava na Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense.

Achar o mandante do assassinato de Marielle e Anderson é fundamental, porque um crime contra uma representante do povo é um crime contra o próprio povo. Mas para além do drama político, existe um drama humano por trás dessa história. É o drama de Monica Benício, Marinete da Silva, Anielle Franco e Luyara Santos – viúva, mãe, irmã e filha de Marielle, respectivamente. É o drama de Agatha Arnaus Reis e Arthur Gomes – viúva e filho de Anderson.

Em uma carta póstuma endereçada a Anderson, Agatha escreveu: “Não há um dia que não pense em você, em tudo que não vivemos, não dissemos, me dói muito você não estar com o Arthur, dizendo: “Ele está tão gostoso hoje, amor”, e vendo a evolução e conquistas dele. (…) Esse tempo sem respostas foi muito doloroso. Ainda preciso saber por que isso aconteceu, quem fez e quem mandou, mas tenho fé de que essas respostas chegarão. Enquanto as aguardo, sigo com fé de que um dia nos encontraremos.”

Quer saber mais?
Leia a carta escrita por Agatha Arnaus Reis sobre o primeiro ano sem Anderson Gomes

Quer acompanhar a investigação?
A Delegacia de Homicídios está procurando a arma do crime no mar da Barra da Tijuca

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