Naquela Mesa Diretora tá faltando eles

04/02/2019
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Uma perda para todos

Sabe aquela sensação estranha que precede o primeiro dia numa escola nova? A timidez diante dos coleguinhas? O medo da nova professora?

Pois bem, na última sexta-feira, 513 deputados federais e 54 senadores passaram por isso ao serem empossados para a nova legislatura. Só que no Jardim de Infância Federal – vulgo Congresso – , o primeiro dia de aula também é marcado pela eleição dos representantes da turma. E criança, quando quer muito uma coisa, não poupa esforço na pirraça.

Apesar de ser bem mais numerosa, a turma da Câmara se portou bem. Pela terceira vez seguida, decidiu ser presidida pelo todo-fofo Rodrigo Maia, o Botafogo da Odebrecht, que conseguiu o feito mitológico de ser apoiado por gregos do PSL e troianos do PCdoB.

Já na turma do Senado, a volta às aulas foi beeeeem mais complicada. E se essa newsletter só se importasse com o humor, desse ponto em diante ela focaria nos seguintes fatos: votação aberta (qual decidido pelos senadores), votação fechada (qual decidido por Dias Toffoli), votação fechada (mas com meio mundo declarando voto em voz alta), roubo de pasta, pleito fraudado, nova eleição, renúncia do dinossauro, vitória do ilustre desconhecido – tudo isso no impressionante intervalo de dois dias.

Mas como dizia William Shakespeare do Ingá, “aqui tem informação!!!”.

Dez dias atrás, o professor e ativista Jean Wyllys (PSOL-RJ) abriu mão do seu terceiro mandato como deputado federal. Por ser o único parlamentar abertamente gay em Brasília – e por militar em nome dos direitos humanos – Wyllys recebia ameaças por carta, e-mail e telefone. Andava com escolta da Polícia Federal – o que servia para protegê-lo, mas não a sua família, que passou a ser igualmente ameaçada.

Além das ameaças, Wyllys também foi vítima de inúmeras campanhas difamatórias. Nem depois do anúncio teve paz, passando a ser acusado, numa ação de fake news orquestrada de grupos de direita, de estar fugindo do Brasil por suposta – e absurda – ligação à facada em Jair Bolsonaro.

Bolsonaro e Wyllys tinham um histórico de embates na Câmara. Isso não impediu que Wyllys condenasse o ato de violência cometido, durante a campanha, contra o então candidato a presidente. Já Bolsonaro, que foi eleito com a promessa de combater o crime, manifestou-se com ironia a respeito das ameaças de crimes sofridas pelo parlamentar. Agiu como aluno gaiato quando precisou se portar como diretor da escola.

Durante seus dois mandatos, Jean Wyllys lutou pelo direito das mulheres, das pessoas negras e da população LGBT. Apresentou 60 projetos de lei e foi relator de 65 propostas. Um dos PLs propunha o reconhecimento, pelo Código Civil, do casamento e da união estável entre pessoas do mesmo sexo (hoje os casamentos são celebrados graças a uma decisão do STF). Outro propunha a regulamentar a comercialização de cannabis. Um terceiro regulamentava o aborto até 12 semanas de gestação – que já é legal -, de maneira a que fosse feito na rede pública de saúde.

Sua atuação não se restringiu apenas a assuntos comportamentais. Wyllys propôs que empresas respondendo a processos criminais fossem proibidas de participar de licitações ou de ter contratos com o poder público. Propôs incluir o crime de enriquecimento ilícito no Código Penal, e extinguir o crime de desacato à autoridade. Dos projetos apresentados, apenas dois foram aprovados: um que cria o dia do Teatro Acessível, e outro que dedica o mês de dezembro a atividades de prevenção à Aids.

Noves fora o trabalho como parlamentar, Jean Wyllys se valia do cargo para levar a discussão sobre homofobia e gênero à tribuna da Câmara – ampliando assim a voz de um grupo que já tinha força nas ruas, mas que ainda carecia de um representante federal. Sua importância era maior do que qualquer querela partidária: Wyllys inspirava o orgulho e a militância de milhares de pessoas LGBT, e mostrava que o grupo deve – e consegue – ter um espaço no epicentro do poder. Com sua saída, o país não perde um político de esquerda; perde a representatividade de parcela fundamental da população.

Quer saber mais?
A piauí fez em 2015 um perfil de Jean Wyllys

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Jean Wyllys sempre recebe ofensas e mensagens de ódio nas redes. É sua hora de manifestar apoio

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