O que a fortuna de Bettina diz sobre o Brasils

18/03/2019
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O nome dela é…

Bettina. Você a encontrou no YouTube. E ela faz umas paradas – tipo transformar mil reais em um milhão no intervalo de três anos  -, que nem o seu gerente no banco não faz com você.

Vale uma explicação, na hipótese (pouco provável) de que o leitor ainda não tenha cruzado com o melhor meme de todos os tempos da última semana. Bettina é uma moça branca, loura e bem apessoada, que gravou um vídeo publicitário para o banco de investimentos Empiricus Research, onde trabalha. Na peça, ela explica que sua pouca idade – 22 anos – não a impediu de acumular R$ 1.042.000 através de investimentos no mercado de ações. “Simples assim”, completa.

A falta de tato social – não é lá muito novo uma pessoa branca ganhando seus milhões -, aliada à veiculação insistente do vídeo – ao menos 20 milhões de visualizações – levou Bettina ao Trending Topics do Twitter neste fim de semana. Pouco tardou para que descobrissem seu nome completo, e ao menos duas empresas das quais ela é sócia (uma, em parceria com os pais, com capital social de R$ 535 mil). Em seu blog sobre finanças na Folha, o professor do Insper Michael Viriato explicou, por A + B, que seria impossível Bettina ter transformado mil reais em um milhão no intervalo de três anos: “Investindo como o bilionário [Warren Buffett], a jovem teria levado mais de 35 anos para alcançar seu patrimônio atual.”

Para tentar conter o dano causado à funcionária (ou seria à própria imagem?), o banco para o qual Bettina trabalha gravou um segundo vídeo – sério, solene, em branco e preto -, onde ela reiterou que sua fortuna foi erguida por conta própria. O CEO da empresa também aproveitou para publicar um texto constrangedor no site Money Times, explicando que a chegada de sua funcionária ao Trending Topics era “um sinal inequívoco” de que a campanha havia funcionado (esqueceu de contar que a fama vinha acompanhada de um linchamento virtual à moça).

Mas o mote aqui não é falar de Bettina. O mote é discutir uma ideia torta, perversa, que toma a fortuna como medida de sucesso – isso num país que tem mais de 55 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza (ou seja, com cerca de R$ 400 por mês). Há algo de pornográfico – mais até do que o golden shower do presidente – quando um pessoa declara de forma pública e despudorada ter uma fortuna que a coloca entre 0,05% da população com mais de R$ 1 milhão em aplicações.

Talvez isso decorra de uma patologia econômica, política e social que transformou o mercado financeiro no Brasil num dos mais lucrativos no mundo. No ano passado, por exemplo, quando o país chegou a 12 milhões de desempregados, Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander lucraram, juntos, R$ 69 bilhões – 19,88% a mais que no ano anterior.

É a mesma patologia que fez a Vale – aquela que ignorou sinais claros de um possível rompimento da barragem em Brumadinho – ter um lucro líquido de R$ 11 bilhões até o terceiro semestre de 2018. Que a fez manter o pagamento de bônus aos seus executivos (apenas adiando a operação para o próximo ano), mesmo diante do descaso criminoso que resultou no assassinato de 308 pessoas.

A desigualdade no Brasil é uma endemia. O grupo dos 10% mais ricos concentra 43,1% do dinheiro, enquanto os 40% mais pobres retêm 12,3%. Quando Bettina conta, orgulhosa, que transformou R$ 1.520 em R$ 1 milhão, ela ignora que o seu aporte inicial já era maior que a renda per capita de uma família brasileira, que é de R$ 1.268. Ignora, também, que num país marcado pelo racismo, pessoas brancas recebem 79% a mais do que as pretas.

Vale, portanto, relembrar a frase de um famoso tuiteiro: “Não me sinto confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades.”  E a verdade, por mais dura que seja para quem vive na bolha do mercado financeiro, é que o Brasil não é uma Suíça.

É cruel apregoar o acúmulo num país que ocupa a nona posição em desigualdade de renda. Num cenário ideal, Bettina não invadiria a tela do computador para falar de quanto tem, mas do que fez, com o que tem, para tornar essa realidade mais justa. Oxalá cheguemos lá.

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