Que tiro foi esse?s

15/01/2019
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Ampla, quase irrestrita e nada gradual

O presidente Jair Bolsonaro assinou hoje um decreto que faz uma abertura ampla, quase irrestrita e nada gradual da posse de armas. Sem poder derrubar a Lei do Desarmamento, de 2003, Bolsonaro fez uso do decreto para alterar alguns artigos. Antes era necessário que um delegado da Polícia Federal atestasse a efetiva necessidade do porte pela pessoa. O decreto define parâmetros de efetiva necessidade bem mais generosos. Agora a posse de armas é liberada para moradores de áreas rurais, pessoas responsáveis por estabelecimentos comerciais ou industriais, ou moradores de áreas urbanas com mais de 10 assassinatos por 100 mil habitantes.  A liberação do armamento para a população – especialmente como medida de segurança pessoal, comum no discurso de Bolsonaro – é uma admissão de derrota do poder público que, incapaz de proteger o cidadão, o entrega à própria sorte. A expectativa de especialistas é de que mais armas vendidas não resulte na diminuição da violência.

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A medida parece em descompasso com o que querem as pessoas no Brasil

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Um pesquisador reuniu 61 pesquisas que relacionam armas, crime e violência

Sinais, fortes sinais

O ano começou com o nosso chanceler eruditão, Ernesto Araújo, recomendando que os brasileiros escutassem “menos CNN e mais Raul Seixas”. Mas e agora que a CNN vai abrir um canal no Brasil? E agora, que esse canal vai ser comandado por um ex-bambambam da Record – emissora claramente simpática ao governo Bolsonaro? Estaria Araújo alertando o brasileiro sobre o que virá? Seria ele um progressista infiltrado? Mas vamos aos fatos: ontem foi anunciado que a CNN, uma das maiores redes de notícias do mundo, cedeu sua marca para uma empresa brasileira criar a CNN Brasil. A empresa vai ser controlada por Douglas Tavolaro, até então vice-presidente de jornalismo da Record, e Rubens Menin, fundador da MRV Engenharia, maior construtora do país. Tavolaro é sobrinho, braço direito e biógrafo de Edir Macedo, o todo poderoso da Universal. Foi gravado negociando com Aécio Neves um patrocínio da Caixa para a emissora, em troca de uma entrevista com o então presidente Michel Temer. Já Rubens Menin, dono da MRV, cresceu graças ao programa Minha Casa, Minha Vida, e já foi condenada por trabalho escravo. Daniela Lima, da Folha, lembrou um post de Eduardo Bolsonaro, em que ele dizia que “quando vier um canal/jornal conservador o negócio vai deslanchar”. Sinais. Fortes sinais.

Especulação em terra indígena

Na madrugada da última sexta-feira, uma comunidade Guarani Mbya, nos arredores de Porto Alegre, foi atacada a tiros, por dois homens encapuzados. A intenção era intimidar os indígenas, o que tem ocorrido de forma rotineira na região, que é alvo de especulação imobiliária (uma empresa pretende construir um condomínio de luxo no local). Esse não foi o primeiro ataque a uma comunidade indígena em 2019. Em Rondônia, grileiros invadiram a terra indígena Uru-eu-wau-wau, e no Pará, madeireiros invadiram a terra Arara. E não dá para achar que vai melhorar, já que a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, nomeou para a presidência da Funai o general Franklimberg Ribeiro, que presidiu o órgão de maio de 2017 a abril do ano passado, quando foi afastado graças a reclamações de lideranças indígenas.

Quer saber mais?
O presidente retirou da Funai a atribuição de demarcar terras indígenas, e passou para o ministério da Agricultura

Quer se manifestar?
Reclame com a ministra Damares Alves
https://twitter.com/DamaresAlves

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