Jean Wyllys no conselho de ética, esterilização pelo SUS e transgênicoss

17/04/2018
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Carreta Furacão Damares

Você conhece o Furacão Damares? Trata-se de um evento climático radical, que costuma atingir o país de mês em mês – e que tende a coincidir com momentos de temperatura elevada no governo Bolsonaro.

O exemplo mais recente ocorreu na semana passada, quando começou o processo de fritura do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno.

Podem ter sido os astros, a Lua, o movimento das marés, ou o aquecimento global (mesmo que certas pessoas o considerem “secundário”). Fato é que o imbróglio político acabou coincidindo com mais uma aparição do furacão. Nesta última, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos deu a entender que o seu ministério terá dificuldade em defender a mulher, a família e os direitos humanos. “Se eu tivesse que dar um conselho para quem é pai de menina, mãe de menina, era ‘Foge do Brasil‘”, disse, para mostrar como é grave a situação de violência contra a mulher.

Em defesa da ministra, ela também disse, e com razão, que é necessário haver uma “revolução cultural” de forma a que as pessoas aprendam a combater a violência contra a mulher desde a escola: “Não adianta eu fazer só a repressão.”

Mas o que realmente importa, aqui, é uma frase dita por Damares Alves seis anos atrás – e desenterrada pela imprensa, em janeiro, quando ela foi convidada para o governo Bolsonaro: “A igreja evangélica perdeu espaço na história. Nós perdemos um espaço na ciência, quando deixamos a Teoria da Evolução entrar nas escolas.”

A Teoria da Evolução foi proposta pelo naturalista britânico Charles Darwin no século 19, após décadas observando animais, plantas, fósseis e eventos geológicos mundo afora. A ideia é de uma simplicidade sublime: todos os seres vivos – de uma bactéria a um elefante, de uma joaninha a uma árvore – descendem de um ancestral comum, e estão aqui porque evoluíram em formas distintas durante milhões de anos, de forma a se adaptar às diferentes condições do ambiente.

(A teoria não vale para o chiuaua, que só existe por ter sido uma invenção perversa de alguns humanos que queriam infernizar a vizinhança.)

Uma das premissas do Darwinismo é que os indivíduos mais adaptados à determinadas condições geram filhotes, que sobrevivem e se reproduzem mais do que aqueles menos  adaptados, não necessariamente apenas aqueles maiores e mais fortes. O beija-flor, por exemplo, é um dinossauro. E quando um asteroide tocou o terror na Terra, há 65 milhões de anos, quem resistiu não foi o maioral.

O sucesso da teoria evolutiva fez com que ela logo fosse aplicada às ciências sociais, criando, ainda no século 19, o conceito de Darwinismo Social. A lógica – que acabaria desaguando nas ideias de Adolf Hitler – era igual: de que a vida em sociedade privilegia os mais aptos, que não são os mais inteligentes, nem os melhores (e tome Donald Trump no comando do mundo para comprová-la).

A exemplo de Trump, Jair Bolsonaro parece ter sido um candidato talhado pela evolução. Dez anos atrás, sua verve agressiva lhe reservava apenas um lugar pitoresco no baixo clero da Câmara. Mas a expansão do Facebook, o descrédito vivenciado pela imprensa, e a debacle econômica e moral dos governos petistas acabaram por criar um ambiente perfeito para os Homo sapiens que sofriam de incontinência verbal. O ônus tornou-se bônus.

Mas o ecossistema de uma campanha não é igual ao de um governo federal. E, passados 50 dias da posse, Bolsonaro ainda parece ter dificuldade de se adaptar à nova realidade.  O presidente que recebe seus ministros no Palácio do Planalto usando chinelo e uniforme de futebol falsificado não é presidente; é candidato. O presidente que frita um ministro publicamente, e o demite por pressão do pimpolho também é candidato. O problema, como escreveu Fernando Henrique Cardoso, é que o caso acaba respingando em quem não merece: “Problemas sempre há, de sobra. O presidente, a família, os amigos e aliados que os atenuem, sem soprar nas brasas. O fogo depois atinge a todos, afeta o país.”

Não se trata aqui de fazer uma defesa de Gustavo Bebianno – não mesmo. Trata-se de fazer o presidente entender que a lógica “lacrativa” do candidato não se adequa aos ritos exigidos pelo maior cargo da República. Pelo bem das instituições – e pela prevenção a uma nova tempestade da Carreta Furacão Damares -, o presidente bem que podia se valer de alguns conceitos de Darwin.

Quer saber mais?
Neste vídeo de cinco minutos, o naturalista Sir David Attenborough faz um resumo da revolução provocada por Charles Darwin

Quer se aprofundar?
O site Darwin Online tem uma série de manuscritos – inclusive os que documentam a passagem dele pelo Brasil

Quer ir direto na fonte?
Você pode baixar o PDF de A Origem das Espécies, a obra seminal de Darwin

Tem que mudar isso aí

Em novembro do ano passado, completou-se um ano da reforma trabalhista sancionada pelo ex-presidente Michel Temer. Embora tenha havido uma diminuição de 3,6% no desemprego, isso se deveu ao aumento do número de empregos informais e de pessoas que foram trabalhar por conta própria. No campo das negociações e litígios entre empregados e empresas, a situação piorou. Os sindicatos diminuíram radicalmente de tamanho depois do fim da contribuição sindical obrigatória – o que acabou por enfraquecer a defesa dos seus associados em negociações por aumento de salário ou melhoria de condições de trabalho. O número de ações movidas por empregados na Justiça do Trabalho também diminuiu, porque a nova lei obriga os empregados a pagar as custas do processo, caso sejam derrotados.

Quer saber mais?
Bolsonaro já falou em acabar com a Justiça do Trabalho

Veneno acima de todos

O paraquate é um agrotóxico que pode causar depressão, câncer e Mal de Parkinson. Teve a venda proibida na Europa desde 2007, mas aqui, é o oitavo pesticida mais usado na agricultura. Quer dizer, o veneno recebeu a classificação de extremamente tóxico da Anvisa, e foi proibido de ser vendido no país, mas só a partir de 2020 (e a proibição ainda pode ser revertida pelo Congresso, que vem recebendo afagos da Syngenta, a empresa suíça responsável pela fabricação). Atualmente, oito pessoas são intoxicadas por agrotóxicos a cada dia no Brasil (o número pode ser muito maior, dado que o Ministério da Saúde acredita que haver uma subnotificação dos casos).

Quer saber mais?
O governo vem aprovando a comercialização de novos agrotóxicos em uma velocidade preocupante

Direitos abaixo de tudo

Entre as 202 empresas elencadas na lista suja do trabalho escravo de 2018, quatro são fazendas de café em Minas Gerais, onde 210 empregados foram flagrados em situação precária. As ocorrências mais comuns diziam respeito a alojamentos em péssimas condições, retenção de documentos pelos fazendeiros e falta de registro na carteira de trabalho. Na fazenda Córrego das Almas, em Piumhi, interior de Minas, 18 pessoas foram resgatados pelo falecido Ministério do Trabalho. Trabalhavam de segunda a sábado, das 6h às 17h, sem receber qualquer hora extra. Além disso viviam em alojamentos coletivos infestados de morcegos e ratos. A fazenda tinha uma certificação internacional concedida pela Starbucks, rede de cafeterias norte-americana.

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O Somos Livres é um movimento que combate o trabalho escravo no Brasil

Renasceu das cinzas

A PEC 29/2015 altera o artigo quinto da Constituição para proibir definitivamente o aborto, mesmo nos casos em que ele hoje é permitido (a saber: quando feito através do SUS nas 20 primeiras semanas de gravidez, e apenas em casos em que ela decorre de violência sexual, em que há risco de vida para a mãe, ou em que o feto é anencéfalo). O projeto, de autoria do ex-senador, ex-futuro-vice e ex-quase-ministro Magno Malta (PR-ES), tinha sido arquivado no fim da legislatura passada. Assim continuaria, não fosse um requerimento do senador Eduardo Girão (Podemos-CE), que contou com a assinatura de outros 28 parlamentares, resultando na ressurreição da PEC, que agora volta a tramitar na Comissão de Constituição e Justiça.

Quer pressionar?
A senadora Simone Tebet, que votou pela volta da tramitação da PEC, é a presidente da CCJ
simone.tebet@senadora.leg.br

Joãozinho, sentido!

O governo do Distrito Federal tem flertado com a ideia de militarizar suas 36 escolas públicas. Como teste, já implementou um modelo de gestão compartilhada com a Polícia Militar em quatro delas. No Centro Educacional 7, em Ceilândia, o novo diretor, o major da PM Edney Freire, instituiu regulamento semelhante ao dos quartéis, com corte de cabelo mandatório (meninos devem usá-lo curto, meninas devem prendê-lo em coque). Avisou também que os alunos poderão ter aula de civismo, ética e “ordem unida” (nome pomposo para o treinamento de marchas militares e de desfiles cívicos). A militarização das escolas tem crescido no país, e foi uma bandeira de Jair Bolsonaro em sua campanha presidencial. Afora os colégios geridos pela PM, há 13 instituições de ensino fundamental controladas pelo Exército, que se destacam pela qualidade do ensino – até porque têm um custo por aluno três vezes maior que em uma escola pública regular.

Quer saber mais?
A Nova Escola discutiu se militarizar as escolas é uma solução

Propostas indecentes

O primeiro projeto protocolado na Câmara dos Deputados em 2019, do Pastor Sargento Isidorio (Avante-BA), pretende declarar a Bíblia patrimônio cultural. O projeto de número 26, do deputado federal Weliton Prado (PMB/MG), estabelece o limite de quinze minutos para a propaganda antes dos filmes nas salas de cinema. Os dois PLs estão listados em um perfil recém-criado no Twitter, o “Proposições parlamentares que vão mudar sua vida”. Como os sonhos (e os projetos de lei pitorescos) não envelhecem, estão lá também o importantíssimo PL 2924/2004, de Lincoln Portela (PRB-MG), que Institui o Dia Nacional do Sono, ou o PL 5534/2009, de José Mentor (PT-SP), que proíbe a transmissão de lutas de artes marciais pelas emissoras de televisão.

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O advogado Jeff Nascimento está elencando em uma thread de Twitter os principais projetos apresentados por cada deputado

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MemeNews
preparou uma lista com os e-mails de todos os deputados. Escreva para o seu

O “crime” do padre Amaro

No governo em que as raposas tomam conta do galinheiro, não surpreende que a autarquia responsável pela reforma agrária caia nas mãos de um madeireiro. Silvério Fernandes, cotado para chefiar a superintendência do Incra responsável pela área do Xingu, no Pará, é um latifundiário que está em disputa aberta contra o padre José Amaro Lopes de Souza, referência para os trabalhadores rurais sem terra da região. Padre Amaro era também o principal escudeiro da ativista Dorothy Stang, assassinada em 2005 justamente por lutar pela reforma agrária (o irmão de Silvério, Laudelino Fernandes, chegou a ser investigado pela morte, mas não foi condenado).

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O padre Amaro está respondendo a um inquérito por associação criminosa, mas segundo a Comissão Pastoral da Terra ele é inocente

Boca rota

Na última segunda-feira o antiministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi ao programa Roda Viva, e deu mais um show de desinformação. Já não dá mais para saber se Salles não conhece a sua pasta ou se veio de um universo paralelo, tamanho são os equívocos. Disse, por exemplo, que o Brasil é o maior exportador de produtos agropecuários do mundo, quando na verdade são os Estados Unidos. Em um dado momento, classificou o debate sobre Chico Mendes – uma das maiores lideranças do Brasil na área ambiental – como irrelevante, e reproduziu uma visão do agronegócio, que o acusa de ter explorado os seringueiros (o ambientalista foi assassinado justamente por enfrentar os grandes agricultores do Acre).

Que saber mais?
Assista a entrevista de Salles

Quer conhecer o legado de Chico Mendes?
O ambientalista é tema de estudos acadêmicos

Legado em risco

A deputada estadual Dani Monteiro (PSOL-RJ) recebeu uma ameaça no seu primeiro dia na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Ao sair do edifício, no Centro, encontrou seu carro rabiscado com mensagens ameaçadoras. A deputada prestou queixa à polícia e informou à presidência da Alerj, que disponibilizou um carro blindado. É uma medida necessária, dado que Monteiro é uma das três ex-assessoras da vereadora Marielle Franco recém-eleitas para a Alerj. Marielle foi assassinada em março do ano passado, e embora a investigação pareça perto de uma conclusão – cinco suspeitos já foram presos -, o crime ainda não foi solucionado.

Quer se manifestar?
Assine a petição da Anistia Internacional que exige a solução do caso

MemeNews é financiado pela Open Society Foundations, por meio de um projeto que pretende unir humor e mudanças sociais.