Três projetos de lei estapafúrdioss

14/06/2019
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Nota dos editores

NOTA DOS EDITORES

Toda sexta, MemeNews publica uma edição especial, em parceria com ONGs, institutos e agências. A de hoje, com projetos de lei inusitados, teve curadoria e edição do Proposições que vão mudar sua vida.

Tem que desesquerdizar isso aí

O governo Bolsonaro é bastante chegado a um inimigo. Na falta do que apresentar, se defende atacando – e tome bordoada em comunista, globalista, gayzista, e todo tipo de ista que parece saído de uma história de bruxas ou de um tuíte de Olavo de Carvalho. Foi se valendo dessa lógica que o deputado federal Heitor Freire (PSL-CE) sugeriu ao presidente, em março, que ele criasse a Secretaria Especial de Desesquerdização da Administração Pública Federal. O objetivo seria “realizar um amplo controle, fiscalização, identificação, mapeamento, monitoramento, com consequente sugestão de exoneração (…) de todo aquele agente de esquerda que atue de forma oculta e que continue trazendo danos diretos e indiretos para a sanidade desta nação”. A sugestão, feita através de uma Indicação da Câmara, foi enviada à presidência, que pode eventualmente transformá-la numa medida provisória.

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Em janeiro, o governo já parou depois de uma “despetização” na Casa Civil

Patronagem

Por falar em “desesquerdização”, os deputados federais Carlos Jordy (PSL-RJ) e Heitor Freire (PSL-CE) protocolaram dois projetos bem parecidos, pedindo a revogação da lei que tornou Paulo Freire – aquele educador esquerdista que criou um método de alfabetização estudado no mundo todo – em patrono da educação brasileira. Para o seu lugar, sugeriram o padre José de Anchieta, jesuíta espanhol que atuou na evangelização dos indígenas no século XVI. Os nobres deputados só não contavam com a recusa do Santuário Nacional de São José de Anchieta. Em uma nota, o reitor e o vice-reitor criticaram o uso do legado de Anchieta para “fins meramente ideológicos”, e elogiaram Paulo Freire, a quem chamaram de “pedagogo dos oprimidos”.

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Entenda quem foi Paulo Freire, e por quê ele é tão mal visto no governo Bolsonaro

Bahia sem todos os santos

O caso foi arquivado a pedido do próprio autor, mas de tão exótico, vale ser citado. Em abril, o deputado estadual Pastor Isidório Filho (AVANTE) apresentou um projeto de lei, na Assembleia Legislativa da Bahia, propondo entregar o seu estado à proteção da Santíssima Trindade (ou seja, do Pai, do Filho e do Espírito Santo). A intenção, segundo o PL, era anular “todo pacto feito com principados, potestades e demais anjos do mundo tenebroso”. Para não deixar dúvida à qual religião estava se referindo (spoiler: candomblé), o deputado explicava que esses  pactos eram feitos “nas águas, rios, lagos, lagoas, diques, cachoeiras, marés de enchentes, marés de vazantes”. Seria apenas cômico, não fosse o fato de que 18,2% dos baianos se declararam praticantes de outras religiões que não as cristãs, e que em 2019, o Ministério Público da Bahia registrou um recorde de casos de intolerância religiosa no estado. (Aliás, também vale lembrar que o Estado é laico).

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Leia o texto da proposição

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As religiões de matriz africana são as que mais sofrem intolerância religiosa no Brasil

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