14/10/2019

Último Memetorial

Ser ou ser (do PSL)? Eis a questão

“Esquece o PSL, tá ok? Esquece. O cara tá queimado pra caramba lá. E vai queimar o meu filme também.” É Hamlet? É Rei Lear? É Rei Leão? Não, É Jair Bolsonaro.

A declaração, a esse momento já notória, foi cometida na semana passada, quando Bolsonaro se deixou filmar maldizendo o seu partido e o homem que o preside, o deputado federal Luciano Bivar. O mal estar entre os dois envolve alguns milhões de reais, algumas candidaturas a prefeito e um teste de DNA – do qual Bolsonaro tenta escapar – que pode determinar quem é o pai das candidaturas-laranja do PSL na eleição passada.

Bolsonaro maldizendo, Bolsonaro atacando, Bolsonaro recuando: até aí nada de novo. O que é impressionante – e mais grave do que parece – é o fato de um presidente da República se voltar contra o seu próprio partido. Vejam bem: o presidente da República, o homem que ocupa o centro gravitacional da vida política do país. Num cenário de normalidade democrática – e de sanidade científica – gravidade é uma força que atrai. Bolsonaro conseguiu o feito de inverter as leis de Newton.

Quando Jair Bolsonaro se filiou ao Partido Social Liberal, em 2018, o PSL era uma legenda nanica, que só dispunha de um deputado federal. A onda bolsonarista fez com que a bancada do partido na Câmara pulasse para 52 parlamentares, resultando num aporte infinitamente maior dos fundos partidário e eleitoral. Na eleição do ano passado, o PSL dispôs de R$ 17,5 milhões de dinheiro público. Para a do ano que vem, terá R$ 268 milhões.

Se Bolsonaro recuou (por ora) na ideia de deixar o PSL, é por saber que tanto o escrete partidário quanto o montante que ele gera não necessariamente o acompanhariam em uma nova sigla. Isso porque presidente, governadores, prefeitos e senadores podem mudar de partido e manter o mandato, mas não os deputados (e é o número de deputados federais que determina o valor dos fundos eleitoral e partidário). Mas para além de toda essa pendenga financeira, a ofensiva freudiana do presidente contra o seu próprio partido esconde algo muito mais grave: a sua famigerada face antidemocrática.

Bolsonaro foi eleito dizendo que faria uma “nova política”, sem mostrar exatamente o que seria essa nova política, deixando a sua base (e os seus filhos) sempre à vontade para atacar a democracia. Eduardo Bolsonaro, que se quer embaixador nos Estados Unidos, já disse que bastaria “um soldado e um cabo” para fechar o Supremo Tribunal Federal. Carlos Bolsonaro, o tuiteiro-em-chefe, já avisou que “por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos”. Bolsonaro Pai, por sua vez, compartilhou um texto, em suas redes sociais, explicando que a lógica democrática – que para ele é a lógica dos “conchavos” – torna o Brasil “ingovernável”.

Apesar de integrar o segundo maior partido do Congresso, a relação entre Bolsonaro e o Legislativo não é lá muito amistosa. O Congresso votou contra a ida da Funai para o Ministério dos Direitos Humanos, derrubou o decreto que flexibilizava a posse de armas e derrubou 18 dos 33 vetos presidenciais à lei do abuso de autoridade. Um mandatário com apreço pela democracia tentaria criar pontes – por mais precárias que sejam – para reverter tal quadro. Bolsonaro sentiu uma dorzinha no dedo? Sua solução é arrancar o braço.

Romper com o próprio partido é um passo rumo ao isolamento político. E esse isolamento, por sua vez, só pode levar a dois lugares: o de paralisia da máquina pública, ou o de ruptura com as regras do jogo democrático. Assim foi na Venezuela , onde o ditador Nicolás Maduro convocou uma eleição mequetrefe para formar uma Assembleia Constituinte, esvaziando um Congresso onde ele não tinha maioria. Parece um exemplo distante, mas governos autoritários são sempre iguais, não importa se à direita ou à esquerda do espectro político. No atual cenário, um governo capenga parece, infelizmente, a melhor das possibilidades.

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