A ararinha azul contra o governo Bolsonaros

17/06/2019
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O predador

No ano passado, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade assinou um acordo de cooperação técnica com a Associação de Conservação dos Papagaios Ameaçados (ACTP, na sigla em inglês). O acordo vai repatriar 50 ararinhas azuis que hoje estão na Alemanha. A espécie, endêmica de uma microrregião da Caatinga, está extinta na natureza desde 2002; as 166 ararinhas que ainda existem vivem todas em cativeiro, a maior parte na própria Alemanha.

O esforço pela sobrevivência da espécie data de décadas: em 1995, quando ainda havia um derradeiro macho de ararinha livre, o Ibama chegou a reintroduzir uma fêmea na natureza, na esperança de que os dois procriassem (a fêmea acabou desaparecendo três meses depois). Dali a sete anos, o macho também sumiu, e o esforço passou a ser dentro dos cativeiros, de forma a que a espécie chegasse a um número suficiente para arriscar uma nova tentativa de reintrodução. Esse número foi atingido no ano passado.

O acordo de cooperação do ICMBio com a ACTP prevê que as aves sejam trazidas para o Brasil a partir de novembro. Uma vez aqui, serão levadas ao Refúgio de Vida Silvestre e à Área de Proteção Ambiental da Ararinha-Azul, duas Unidades de Conservação vizinhas, localizadas nos municípios de Curaçá e Juazeiro, na Bahia, de onde a espécie é originária. A expectativa é de que sejam soltas entre 2020 e 2024 – isso se não forem predadas, até lá, por uma espécie recém-catalogada: o Antiministrus ambientalis.

Se estivéssemos num habitat político minimamente equilibrado, tanto o Refúgio da Vida Silvestre quanto a Área de Proteção Ambiental das ararinhas seriam locais seguros, já que estão protegidos pela lei que criou as Unidades de Conservação. O problema é que o ataque mais recente do antiministro Ricardo Salles foi justamente contra as Unidades de Conservação.

Um mês atrás, Salles revelou que pretendia rever os documentos de todas as 334 Unidades de Conservação, sob a alegação de que teriam sido criadas “sem critério técnico” (o argumento é absurdo, já que toda demarcação passa por um longo escrutínio do ICMBio). A ideia agradou ao patrão, que já havia declarado seu desejo de transformar a Baía de Angra dos Reis – que é protegida por uma UC – em uma Cancún brasileira.

Na semana passada, o governo deu prosseguimento ao plano, anunciando que vai reduzir o tamanho de 67 Unidades de Conservação. O projeto foi apresentado pelo ministério da Infraestrutura, mas conta com o apoio do antiminstro do Meio Ambiente (que, houvesse lógica, seria justamente a pessoa responsável por se opor à ideia). A ideia é reduzir toda Unidade de Conservação que tiver estradas federais, ferrovias, portos e aeroportos dentro dos seus limites, ou nas margens, sob a justificativa de garantir “segurança jurídica” para os  empreendimentos. A mudança tem que ser feita via projeto de lei, que vai ser preparado pela pasta da Infraestrutura.

Uma das unidades que pode ser atingida é a de Itatiaia, no Rio de Janeiro, onde fica o primeiro parque nacional do país, criado em 1937. Outra é a Reserva Biológica de Poço das Antas, também no Rio, criada em 1974 para ajudar a salvar o mico-leão-dourado. A população da espécie, que chegou a 200 indivíduos nos anos 1960, hoje conta com 3 mil animais – recuperação que jamais teria ocorrido se não houvesse um projeto de reprodução em cativeiro e, claro, de reintrodução controlada, dentro de uma Unidade de Conservação.

A gestão de Salles é um inegável projeto de desmonte, em nome de uma “racionalidade” produtiva atrasada. A defesa dos produtores, em detrimento ao meio ambiente – uma marca registrada nos discursos de Salles e Bolsonaro – não é velada. O que nem ministro, nem presidente entendem é que a luta pela sobrevivência do mico-leão ou da ararinha não configura um capricho de ambientalista em prol de duas espécies carismáticas. Trata-se, no fundo, de uma declaração de respeito para com a natureza, de uma tentativa, ainda que pequena e tardia, de reparar o enorme estrago deixado pelo rastro humano.

Um governo que diminui as Unidades de Conservação é um governo sem nenhum interesse pelos erros que cometemos no passado, e sem nenhum senso de responsabilidade pelas consequências que tais decisões podem gerar no futuro. Por ora, as Unidades de Conservação demarcadas para as ararinhas não constam entre as que devem ser diminuídas (até porque estão no meio do agreste, área pouco convidativa para o agronegócio). Mas e as outras 67? Que outras espécies de plantas e animais serão prejudicadas?

Ao contrário do que pensam Bolsonaro, Salles, Olavo, Araújo e sua trupe paranóica, a luta pela natureza não é uma luta ideológica. É, em última instância, uma luta pela nossa vida.  Assim como as árveres, as Unidades de Conservação também somos nozes.

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Veja a lista das UCs que serão reduzidas

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A piauí fez uma longa reportagem sobre a tentativa de salvar a espécie, e outra, menor, sobre o acordo de repatriação

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