A guerra irracional contra o Fundo Amazônias

19/08/2019
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O fundo do poço do Fundo Amazônia

Sabe aquele ditado que diz assim: “Diga-me com quem andas, e te direi quem és”?

É uma regra que cabe em muitos lugares. Diga-me quantos familiares nomeias, e te direi quem és. Diga-me quantos milicianos homenageias, e te direi quem és. Diga-me que torturador exaltas, e te direi quem és. Diga-me, diga-me, diga-me.

Foi com base nessa máxima que o repórter Leandro Prazeres, do jornal O Globo, resolveu  se perguntar com quem anda o antiministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Descobriu, através de documentos obtidos pela Lei de Acesso à Informação, que Salles deu carona, em aviões da FAB, a dez deputados e senadores da bancada ruralista nos seis primeiros meses do ano. Dez!

E sabe quantos parlamentares da bancada ambientalista ele transportou no mesmo período?

Zero…

Não se estranha, com tamanha boa vontade ambiental, que o desmatamento da Amazônia tenha crescido 278% em relação a julho do ano passado. Não se estranha que fazendeiros do Pará tenham dito que estavam “amparados pelas palavras do presidente” para justificar uma aberração chamada “Dia do Fogo”, em que mais de 700 focos de incêndio foram registrados. Não se estranha que o antiministro do Meio Ambiente tenha tomado o lado dos madeireiros numa briga entre eles e o Ibama.

O resultado é que a tragédia anunciada foi confirmada: na semana passada, o governo da Noruega suspendeu um repasse de R$ 133 milhões ao Fundo Amazônia.

O Fundo Amazônia foi criado em 2008, durante o governo Lula, como uma tentativa de captar dinheiro, de países desenvolvidos, para a preservação da floresta. Desde então, o mecanismo recebeu R$ 3,4 bilhões – 94% da Noruega, 5% da Alemanha e 1% doado pela Petrobras. Desse montante, que é administrado pelo BNDES, R$ 1,8 bilhão já foram usados para projetos na região (60% para ações do Estado; 40% para ONGs).

Desde que foi empossado, o antiministro ataca o Fundo Amazônia. Primeiro Salles questionou sem sucesso os contratos firmados pelo BNDES, apesar de terem sido todos aprovados pelo Tribunal de Contas da União. Em seguida sugeriu, também sem sucesso, que a verba fosse utilizada para indenizar proprietários de terra na área da Amazônia Legal.

Mas chorume mole em pedra dura tanto bate até que fura. No início do mês, a Alemanha suspendeu um repasse de R$ 150 milhões ao Fundo. Quatro dias atrás, foi a vez da Noruega, em protesto contra o aumento no desmatamento e contra o fim do Comitê Orientador do Fundo Amazônia, extinto em julho por um decreto presidencial.

Como era de se esperar, Bolsonaro partiu pro ataque, sugerindo que a chanceler Angela Merkel “pegue essa grana e refloreste a Alemanha”. Sobre a Noruega, perguntou se não era “aquela que mata baleia lá em cima, no Polo Norte”, e em seguida postou um vídeo de cetáceos sendo mortos… na Dinamarca. Acontece que a Alemanha refloresta mais do que desmata: hoje ela tem 32% do seu território coberto por florestas, contra 6,5% em 1990. Já a Noruega planta 2,5 mudas para cada árvore derrubada: 38% do seu território é coberto por florestas, três vezes mais do que cem anos atrás.

Não se trata, aqui, de defender os países europeus. A Alemanha ainda usa o carvão como fonte de energia, e a Noruega explora gás natural e petróleo. Se somadas todas as emissões de gás carbônico desde a Revolução Industrial, os dois países têm muito mais responsabilidade no aquecimento global do que o Brasil (no caso da Noruega, a poluição é indireta, através dos 2 milhões de barris de petróleo que ela despeja por dia no mercado mundial). Mas é justamente por isso que Alemanha e Noruega criaram políticas para incentivar a preservação da Amazônia. A lógica é quase indenizatória, como se alguém te pagasse para cuidar da sua saúde.

Como escreveu a jornalista Míriam Leitão, a reação da Noruega não foi motivada por razões políticas, já que o país “tem até uma tendência conservadora”. Mas conservadorismo nenhum é capaz de dialogar com a truculência, a irracionalidade e – por que não? – a burrice do governo Bolsonaro (e tome críticas de Reinaldo Azevedo, Alexandre Frota e até do uber ruralista Blairo Maggi como prova dessa incapacidade).

“O Fundo nasceu porque o Brasil convenceu o mundo de que merecia compensação quando consegue reduzir o desmatamento”, explicou Míriam. “O dinheiro é doado. O grande beneficiário é o próprio setor público. O Comitê Orientador tinha representantes de todos os estados amazônicos, de empresários, cientistas e ambientalistas. Era plural. O governo acabou com o comitê, brigou com os doadores e está rasgando dinheiro.” E quem paga a conta somos nozes.

Quer saber mais?
Acesse a página oficial do Fundo Amazônia

Quer saber o que Fundo faz?
O antiministro Ricardo Salles afirmou que a Amazônia precisa de “soluções capitalistas”, ignorando que o Fundo Amazônia já apoia projetos como o Néctar da Amazônia, para a criação de abelhas e o Concretizar, para a produção de açaí e cupuaçu

Quer saber como está a situação na Amazônia?
Há dois meses o governador Helder Barbalho (MDB), do Pará – estado que mais desmata – não autoriza a participação da PM em operações do Ibama

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