A Terra não é plana, nem redonda; é quadradas

03/06/2019
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Às favas com os fatos

No final de 2016, a Fundação Oswaldo Cruz realizou uma pesquisa sobre o uso de drogas no Brasil. Entrevistou 16 mil pessoas, a partir de uma amostragem do IBGE, concluindo que o consumo de drogas não havia chegado a um nível epidêmico. Apesar de encomendada pelo Ministério da Justiça, a pesquisa nunca foi divulgada – até se tornar pública, dois meses atrás, numa reportagem feita pelo Intercept e pela Casa da Democracia.

Nesta semana, o ministro da Cidadania Osmar Terra – que é a favor da internação compulsória de dependentes químicos –  tentou arquivar a pesquisa. “É óbvio para a população que tem uma epidemia de drogas nas ruas. Eu andei nas ruas de Copacabana, e estavam vazias”, explicou, de forma socrática (ou bolsocrática). “Se isso não é uma epidemia de violência que tem a ver com as drogas, eu não entendo mais nada.” Terra ainda alegou que a Fiocruz – um polo de excelência científica, que fabrica vacinas e faz pesquisas contra o zika – “tem um viés ideológico de liberação das drogas”.

A ideologia, esse bicho papão, é um coringa sacado da manga por qualquer integrante do governo Bolsonaro quando contrariado por evidências científicas. O chanceler Ernesto Araújo já escreveu que existe uma “ideologia da mudança climática”, decorrente de uma estratégia “globalista de instilar o medo para obter mais poder”. Argumentou que o aumento da temperatura seria causada pelo posicionamento das estações de medição: antigamente ficavam em zonas rurais, que acabaram sendo fagocitadas pelo asfalto do tecido urbano, criando uma impressão pontual de calor. Só não citou que essa tese havia sido desmontada por um estudo em 2011.

Terra e Araújo não foram os únicos do governo a se valer do coringa ideológico. Dois meses atrás, o senador Flávio Bolsonaro propôs uma lei que altera o Código Florestal, com potencial de fazer um estrago sem precedentes no que resta de mata virgem na Amazônia. Quando criticado, o Filho Zero Um escreveu um artigo dizendo que “a ideologia verde foi refúgio de esquerdistas”. Para não perder o embalo, aproveitou para negar o aquecimento global – algo que parece estar no DNA da família.

E quando o assunto é meio ambiente, ninguém tem mais coringas na manga do que Ricardo Salles. O antiministro já disse que 60% do desmatamento da Amazônia, no último ano, teria ocorrido em áreas de conservação (o dado real é 15%); e que essas unidades de conservação teriam sido criadas sem critério técnico (toda demarcação é embasada em consultas públicas e estudos feitos pelo ICMBio). Para não fugir ao mantra do governo, alegou que o Brasil vem sendo prejudicado pela “bem orquestrada campanha de difamação promovida por ONGs e supostos especialistas”. E o que move essa campanha? Ele, o “preconceito ideológico”. Biiiiiiingo!

Dados estatísticos também são atacados. O IBGE mede o desemprego há nove anos com os parâmetros da Organização Internacional do Trabalho. Para Bolsonaro, a metodologia – que apontou um aumento da taxa de desocupados no início do seu governo – “parece que é feita para enganar a população”. O capitão também desprezou os fatos ao suspender a instalação de 8 mil radares eletrônicos em estradas, sob a justificativa de que as multas iriam para o bolso das concessionárias. “Não vamos achar que meia dúzia de pessoas aqui em Brasília estavam preocupadas com você se acidentar”, disse, durante uma live. Acontece que os radares diminuem, sim, o número de acidentes: evitaram 70 mil mortes nos últimos 25 anos, de acordo com uma estimativa da Ibmec. Mais: o dinheiro das multas vai diretamente para o governo federal.

O que está em jogo para Bolsonaro e sua trupe é o controle da narrativa, mesmo que para isso seja necessário torcer os fatos. Quando Osmar Terra diz que a pesquisa da Fiocruz está errada, a discussão passa a ser mais sobre a posição equivocada do ministro, e menos sobre a adoção de uma política de drogas comprovadamente retrógrada. Quando Ernesto Araújo tece suas conspirações sobre globalismo, a discussão passa a versar sobre os delírios lisérgicos do ministro, e não sobre o fato de o Brasil estar se alinhando aos Estados Unidos sem nenhuma garantia de contrapartida comercial.

Não custa lembrar que o grande guru do governo Bolsonaro é um filósofo autoproclamado, que acredita em uma nova ordem mundial, em toda sorte de teoria conspiratória – inclusive a de que a Terra pode ser plana -, e para quem “acreditar em cálculos (…) conduz necessariamente ao império da ideologia de gênero”.

Se serve de consolo, pelo menos o governo ainda conta com algum ministro – o da Ciência e Tecnologia – que pode garantir, com algum grau de empirismo, que a Terra é de fato redonda.

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