BNDEXIT: Bolsonaro, Levy e a falácia da escolha técnicas

24/06/2019
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Critérios tétricos

A chuva de vazamentos (e “escusas”) que tomou conta do noticiário nas últimas semanas fez com que um fato importante passasse praticamente despercebido: a demissão do engenheiro e economista Joaquim Levy da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

Levy é um economista de renome, que já esteve à frente do Tesouro Nacional no governo Lula e do ministério da Fazenda no governo Dilma (de onde foi demitido, após um ano, por tentar implementar um ajuste fiscal que poderia ter evitado a crise econômica). Também ocupou diretorias no Bradesco e no Banco Mundial, onde estava até o fim do ano passado, quando convidado para integrar o governo Bolsonaro.

Apesar de bancada pelo superministro Paulo Guedes, a indicação de  Levy nunca foi engolida por Jair Bolsonaro, em função de sua proximidade, no passado, com os governos petistas. A situação tornou-se ainda mais complicada quando Levy tentou nomear o advogado Marcos Barbosa Pinto para a Diretoria de Mercado de Capitais do BNDES. Barbosa Pinto é outro nome respeitado no meio econômico, mas tem uma mácula imperdoável aos olhos de Bolsonaro: o fato de também ter trabalhado em governos petistas.

Após uma semana de fritura pública – aquela receitinha caseira, temperada com tuítes de Carlos e Olavo, que também foi aplicada aos ex-ministros Gustavo Bebianno e Carlos Alberto dos Santos Cruz -, Levy e Barbosa Pinto jogaram a toalha. Agora, o banco mais estratégico do país, que tem um orçamento anual superior a R$ 100 bilhões, está sendo presidido por Gustavo Montezano, um engenheiro de 38 anos que foi diretor-executivo no BTG, secretário-adjunto no ministério da Economia e, mais importante, vizinho e amigo dos filhos de Bolsonaro.

Apesar da pouca idade, pode até ser que Montezano consiga fazer uma administração positiva (assim se espera). Mas sua nomeação já nasce sob a suspeição de quem parece estar lá mais para perseguir que construir: a implicância de Bolsonaro com Levy devia-se, principalmente, ao fato de que o economista preferia tocar o banco a abrir uma suposta “caixa-preta” de desvios ocorridos nas administrações passadas (mesmo que, até agora, nem a PF, nem o TCU tenham encontrado irregularidades que envolvam os funcionários do banco).

Bolsonaro foi eleito com a promessa de dar fim ao apadrinhamento político comum ao serviço público (Freud – e o Coaf – explicam). Propagandeou a torto e a direito que se valeria de um critério técnico, e não partidário, na escolha dos nomes. Pois no caso do BNDES, a qualificação técnica de Levy de nada valeu ante o conforto de uma nomeação chancelada pelo círculo familiar. E o mais grave é que exemplos afins estão espalhados por todo o governo.

Alguns casos: 1 – a nomeação desastrosa de Ricardo Vélez Rodríguez para o ministério da Educação, baseado unicamente nos elogios que fizera ao tuiteiro Olavo de Carvalho; 2 – a nomeação de Osmar Terra – que admitiu não saber nada de cultura – para a pasta responsável pela Cultura; 3 – a nomeação do ruralista Ricardo Salles – que nunca havia ido à Amazônia – para o ministério do Meio Ambiente; 4 – a nomeação do chancelouco Ernesto Araújo – que nunca havia coordenado uma embaixada – para o ministério que comanda todas as embaixadas.

O critério tétrico, por assim dizer, também valeu para as demissões. O advogado Gustavo Bebianno foi defenestrado da secretaria-geral da Presidência por despertar a cólera do Filho Zero Dois. O general Carlos Alberto dos Santos Cruz – um militar elogiado até pela jornalista Miriam Leitão, que foi torturada pelos militares – perdeu o cargo por se opor ao secretário de Comunicação Fabio Wajngarten, protegido de Carlos Bolsonaro. A cientista social Ilona Szabó, especialista em segurança pública, nem chegou a assumir o cargo no Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, por divergir do presidente quanto ao porte de armas.

Demissões são comuns, e muitas vezes necessárias, quando é o futuro do país que está em jogo. Mas via de regra, convém que decisões dessa importância estejam fundadas em algum critério objetivo – que pode ser uma denúncia por corrupção, ou uma incapacidade administrativa – e não nos humores do círculo familiar. A política deve ser o espaço do diálogo, da negociação, da confluência entre os que pensam de maneira diferente. A cada demissão aleatória, perde o país.

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