Bolsonaro, 100 dias: réquiem para um recuos

08/04/2019
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100 dias de hesitação

Nesta quarta-feira, dia 10 de abril, o capitão e ex-deputado Jair Messias Bolsonaro completa 100 dias na presidência do Brasil. Ou será que é o Brasil que completa 100 dias de sobrevivência ao governo Bolsonaro?

Foram 100 dias de convivência com frases de Damares Alves, pseudo erudições de Ernesto Araújo, trapalhadas de Ricardo Vélez Rodríguez, canetadas de Ricardo Salles e, claro, tuitadas do trio de ataque formado por Bolsonaro, pelo filho Carluxo e pelo polemista Olavo de Carvalho.

Mas a ideia, aqui, não é apontar o dedo, nem trazer energia negativa, mesmo o capitão reformado tendo a pior avaliação de um presidente em primeiro mandato. Cem dias é uma data importante, que merece ser celebrada. Por isso, MemeNews preparou essa compilação das várias idas e vindas do governo Bolsonaro. Táokay? Não táokay? Tá ou não táokay?

Os recuos, verdade seja dita, começaram antes até de Bolsonaro ser empossado. Em novembro do ano passado, o presidente eleito anunciou a fusão dos ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente. Depois recuou (mas acabou nomeando um ministro tão nocivo para o meio ambiente, que é como se as pastas de fato estivessem fundidas).

Em janeiro, dois dias depois de assumir a presidência, Bolsonaro deu uma entrevista ao SBT afirmando que o Brasil pensava em abrir espaço para a instalação de uma base militar americana. A ideia, aventada por Ernesto Araújo, desagradou o núcleo militar do governo, que foi pego de surpresa. Uma semana depois, Bolsonaro recuou.

Em fevereiro, Bolsonaro fez um recuo triplo carpado. Primeiro avisou que ia demitir o ministro da Secretaria-Geral da presidência, Gustavo Bebianno. Depois recuou, garantindo que não ia demiti-lo. Em seguida recuou do recuo, decidindo pela exoneração. O mês também foi marcado por um recuo positivo no decreto que que alterava a Lei de Acesso à Informação, e por um terceiro, esse negativo, na nomeação da socióloga Ilona Szabó para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária.

Março foi mês de recuo internacional e recuo nacionalista. O recuo internacional ocorreu durante a visita aos Estados Unidos, quando Bolsonaro, inspirado pela xenofobia de Trump, afirmou que “a grande maioria dos imigrantes em potencial não tem boas intenções”. No dia seguinte recuou da declaração, talvez ao ser lembrado que há mais de 1 milhão de imigrantes brasileiros nos Estados Unidos. Já o recuo nacionalista foi devido à ideia estapafúrdia de comemorar o golpe de 1964. A palavra foi mudada para “rememorar” após desagradar até os militares.

Mas um governo de recuos não vive só de hesitações presidenciais. É preciso dar nome aos bois, valorizar o trabalho de quem segue os passos do chefe, reconhecer a qualidade estética dos recuos no andar de baixo. E ninguém – presidente, filhos, generais, senadores ou deputados – fez recuos mais virtuosos do que o agora ex-ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez.

Primeiro Vélez cometeu um recuo de placa, ao enviar uma carta aos diretores de escolas públicas pedindo que os alunos fossem filmados repetindo o slogan da campanha de Jair Bolsonaro (o pedido, inconstitucional, precisou ser abortado). Em seguida perpetrou um recuo mais singelo, ao tentar cancelar as avaliações de alfabetização até 2021 (a ideia, que resultou na saída da secretária de Educação Básica, também foi abortada). O recuo mais recente, ocorrido em março, decorreu da quase nomeação de uma educadora que defendia o ensino “baseado na palavra de Deus” para o segundo maior cargo da pasta.

Avançar e recuar é parte do jogo democrático. Só não recua um governo que não precisa prestar contas ao Congresso, à imprensa e à sociedade. Em tese, portanto, os recuos da administração Bolsonaro têm algo de saudável. O problema, como tudo na vida, está no uso abusivo. Um governo que recua aqui e acolá é um governo ponderado. Um governo que recua a torto e a direito é um governo desgovernado – e isso tem efeitos nefastos na educação, na diplomacia, na economia e até na taxa de empregos. Hesitar é preciso. Mas decidir também é preciso.

Quer saber mais?
O recuo mais recente de Bolsonaro versou sobre a embaixada do Brasil em Israel

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