Bolsonaro e o Nobel da Pazs

30/09/2019
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Impávido que nem o cacique Raoni

O leitor e a leitora conhecem a Bolsovella Preconceitos & Marketing?

Não?? Pois a BP&M – também conhecida como W.C./Brasil – é a agência de publicidade mais patriótica do país. Lá o publicitário que fala em “mindset”, “coaching” ou “endomarketing” é logo substituído por alguém que prometa “cuidar das pessoas”, ou “acabar com tudo isso que tá aí”. Lá, só se trabalha com pautas 100% progressistas.

A Bolsovella Preconceitos & Marketing tem um modelo de negócios único, veloz e sem mimimi. Primeiro, o cliente apresenta sua pauta – que, frisa-se, precisa ser de cunho progressista. A pauta é então encaminhada ao capitão ou ao bispo que comandam a empresa. Depois disso é aguardar, para ver de que forma – e em que local – a pauta será vomitada sobre o público.

Exemplo número 1: suponhamos que o cliente tenha produzido uma revista em quadrinhos, para o público adolescente, em que dois personagens masculinos protagonizam um beijo. Irrelevante, certo? Não se isso chega às mãos do nosso Don Draper em Cristo. Então tome bravata em nome da família, tome ação patética – e ilegal – de busca e apreensão de um gibi que estaria fadado a vender meia dúzia de exemplares na Bienal do Livro. Resultado: obra esgotada, assim como 14 mil outros livros e revistinhas com temática LGBT.

Exemplo número 2: suponhamos que o cliente queira indicar um conhecido ao Prêmio Nobel da Paz. Difícil, certo? Não se isso chega às mãos do nosso Don Draper em Armas. Então tome discurso contra o indicado na Assembleia Geral da ONU, tome uma pauta de alcance restrito transformada, de súbito, num case internacional. Resultado: o azarão que corria por fora multiplica suas chances de levar o prêmio, graças, em grande parte, ao trabalho publicitário do seu anti-cabo eleitoral.

O Nobel da Paz deve ser anunciado em algum momento das próximas semanas, e o cenário grotesco de devastação da Amazônia – acrescido do discurso de Jair Bolsonaro na ONU – faz com que o cacique brasileiro Raoni Metuktire, de 89 anos, desponte, junto com a ativista sueca Greta Thunberg, de 16, como um dos favoritos.

Raoni é um cacique kayapó,  da região do Xingu. Nasceu em 1930, no Mato Grosso, e teve contato com os brancos a partir dos anos 1950, quando sua tribo foi visitada pelos irmãos Villas-Bôas – dois sertanistas que tiveram importante trabalho no mapeamento de indígenas pelo país. Em 1954, conheceu o presidente Juscelino Kubitschek (o primeiro de uma lista que incluiria Sarney, Collor e Lula). Em 1989, acompanhou o cantor Sting numa turnê por 16 países, onde reivindicou a criação do Parque Nacional do Xingu – que, em função de seu esforço, seria homologado dali a quatro anos.

A luta de Raoni não parou por aí. Em 2011, posicionou-se abertamente contra Lula e Dilma durante a construção da usina de Belo Monte. Neste ano de 2019, se viu obrigado a rodar o mundo, mesmo com 89 anos de idade, para alertar sobre a destruição da Amazônia promovida pela política de Bolsonaro e Ricardo Salles. Foi recebido pelo papa Francisco e pelo presidente francês Emmanuel Macron. O conjunto de sua obra – e o cenário ambiental crítico – levaram a Fundação Darcy Ribeiro a indicar seu nome, duas semanas atrás, ao Nobel.

Embora pareça nobre, ter um brasileiro indicado ao Nobel da Paz é muito mais um sintoma do nosso fracasso do que algo a ser celebrado. Num cenário ideal, Raoni estaria em sua tribo, e não em viagens pela Europa para alertar sobre o óbvio: que a preservação da Amazônia não diz respeito apenas aos indígenas que ali vivem, mas a todo o país – que depende da evapotranspiração das árvores para para irrigar outras regiões -, e ao mundo – que precisa da floresta para resfriar os efeitos do aquecimento global.

A luta do cacique é uma luta nossa.

Quer saber mais?
Ontem o Fantástico fez uma reportagem de oito minutos sobre Raoni

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Não entendeu os memes?
São todos da série Mad Men, sobre uma agência de publicidade um pouco melhor que a Bolsovella Preconceitos & Marketing

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