Bolsonaro flerta com um autogolpes

20/05/2019
_____

O Kamikaze

Jornais impressos são divididos em colunas verticais de texto – geralmente seis, que correm paralelas, como se fossem as raias de uma piscina. Essas colunas são usadas como medida para definir a importância dada à principal notícia do dia. Uma manchete algo corriqueira – alta do dólar, disparada da violência, delação premiada – costuma ocupar o espaço de três colunas (ou metade da largura da capa).

A utilização das colunas aumenta à medida em que aumenta a novidade – ou a gravidade – do fato. Reajuste salarial dos ministros do STF: quatro colunas. Corte de 30% no orçamento das universidades: cinco. Manchetes de seis colunas – aquelas que correm de um lado ao outro da página – são usadas em situações muito raras. Foi o que ocorreu na edição deste último sábado da Folha de S.Paulo.

“Bolsonaro endossa texto sobre país ingovernável, e instabilidade cresce”, dizia o título, a respeito de uma pensata escrita por um ex-candidato a vereador do Rio de Janeiro – e compartilhada pelo presidente em sua rede de WhatsApp. O texto retrata Jair Bolsonaro como um mártir, que fracassa não por causa da sua precariedade, e sim por por culpa de um fantasma sem nome, chamado ali de “corporações”.

“Na hipótese mais provável, o governo será desidratado até morrer de inanição, com vitória para as corporações.”, diz o texto, para em seguida propor uma solução kamikaze: A hipótese nuclear é uma ruptura institucional irreversível, com desfecho imprevisível.” Ou seja: um golpe.

Ficasse restrito à roda de amigos do vereador – lugar que deveria lhe caber -, o texto seria apenas como um desabafo infantilóide, ou um bom roteiro para mais uma série do cineasta José Padilha.

Mas um texto desse, compartilhado pelo núcleo duro de um presidente nostálgico da ditadura, é de uma gravidade sem precedentes. Bolsonaro passou a campanha repetindo que o PT transformaria o Brasil numa Venezuela. A verdade é que nunca estivemos tão próximos de um regime nefasto como o de Nicolas Maduro quanto neste momento. Freud – aquele analista gramscista, gayzista e globalista – explica.

Bolsonaro é um incompetente, que governa o país como quem leva os filhos pra Disney. Foi eleito com folga, carregou consigo uma bancada expressiva, e em cinco meses já destruiu sua relação com o Congresso. Periga cortar as pontes que ainda restam para a aprovação da reforma da previdência, além de ter reprovada a Medida Provisória que diminuiu o número de ministérios. Não por acaso, seu endosso ao texto conspiratório ocorreu na mesma semana em que milhões de brasileiros foram às ruas para protestar contra os cortes na Educação, e em que seu filho Zero Um, o senador Flávio Bolsonaro, teve o seu  sigilo fiscal quebrado em uma investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro.

Como Bolsonaro costuma medir tudo pela régua do combate, o recado das ruas não foi interpretado como um aviso do patrão – afinal, é o povo que paga o seu salário – de que o serviço precisa melhorar. À la Olavo, chamou os multidão insatisfeita de “imbecil”, e resolveu convocar uma manifestação pró-governo para o próximo domingo, como se presidir o país fosse uma disputa por tamanho de pau.

Passados cinco meses, Bolsonaro ainda não entendeu que foi eleito presidente. Não entendeu que o que se espera dele é seriedade, em vez de bravata no Twitter, insulto a jornalista, e piada com japonês. Como bem escreveu a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP), que chegou a ser sondada para ocupar a vice-presidência, “não tem sentido quem está no poder convocar manifestações”. Janaína disse que se as ruas estiverem vazias, no próximo domingo, Bolsonaro “terá que parar de fazer drama para TRABALHAR”

Ao endossar a convocação do próximo domingo, Bolsonaro incorre numa lógica suicida. A jornalista Daniela Lima resumiu: “Manifestações de pequeno porte seriam associadas à perda de capital político de Jair Bolsonaro. Se forem amplas e virulentas, porém, no tom emanado nas convocações, as mobilizações tendem a alimentar percepção de que ele pretende emparedar os Poderes na base do grito.” É o nosso Game of Thrones, versão Record.

Seria ao menos um bonito presente do pai para o Filho Zero Três, aquele que defende a produção de armas nucleares e que já expressou o desejo, no passado, de ver um país com o STF fechado.

Quer saber mais?
Como bem observou o cientista político Celso Rocha de Barros, a aposta de Bolsonaro lembrou o movimento de Jânio Quadros, e nós sabemos o fim daquela história

Quer entender Bolsonaro de um jeito bem humorado?
O humorista Ricardo Araújo Pereira explica o paradoxo que Jair criou ao criticar quem manifestava contra os cortes na educação

MemeNews é financiado pela Open Society Foundations, por meio de um projeto que pretende unir humor e mudanças sociais.