Bolsonaro, inimigo da infâncias

08/07/2019
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Tristes Trópicos

É triste começar um texto dizendo que o presidente da República cometeu três excrescências verbais nas últimas semanas. Mas fato é que o presidente da República – a autoridade mais alta do país – cometeu três excrescências verbais nas últimas semanas.

A primeira foi cometida no fim de junho, durante o breve aperto de mãos, no Japão, entre Bolsonaro, o deputado Hélio Negão, e outro craque da velhacaria oral, o americano Donald Trump. Ao apresentar o deputado brasileiro ao presidente americano, Bolsonaro explicou o significado do termo “negão”, para em seguida perguntar, qual um moleque arteiro e mal educado, se teria sido melhor trazer o ex-presidente Barack Obama. O nome disso é racismo.

A segunda excrescência foi cometida no último sábado, quando Bolsonaro usou todo seu repertório conspiratório para ironizar a preocupação dos países estrangeiros com a Amazônia (não custa lembrar que o antiministro Ricardo Salles está à beira de jogar no lixo um acordo internacional que trouxe mais de R$ 3 bilhões para a floresta). “O Brasil é uma virgem que todo tarado de fora quer”, declarou, na tentativa tosca – e sexista – de reduzir a maior floresta tropical do mundo a um drama familiar de Nelson Rodrigues.

Já a terceira excrescência, dita durante uma live, é de uma desonestidade tão grande, que merece ser transcrita na íntegra:  “Quando um moleque de nove, dez anos vai trabalhar em algum lugar, tá cheio de gente aí [dizendo] ‘trabalho escravo’, não sei o quê, ‘trabalho infantil’. Agora quando tá fumando um paralelepípedo de crack, ninguém fala nada”. A frase, que contrapôs trabalho infantil ao vício em crack (como se fossem as duas únicas opções para uma criança de dez anos), serviu para ilustrar uma nova bandeira bolsonarista: a de que o país só teria a ganhar com crianças trabalhando (mesmo que o próprio autor da frase nunca tenha trabalhado na infância).

Se a história tivesse parado aí, já teria cumprido sua cota de atrocidade. Mas no domingo, dia de almoço em família, o deputado federal Eduardo Bolsonaro achou adequado jogar fermento na frase. “Conte aqui a sua experiência caso tenha trabalhado enquanto menor de idade”, escreveu no Twitter. O juiz e fisiculturista Marcelo Bretas foi um dos primeiros a responder, lembrando o serviço prestado aos 12 anos “na pequena loja da família”. Logo depois veio a jornalista Leda Nagle, contando que aos 10, já trabalhava no “armazém meu, do meu pai e da minha mãe”.

Só que trabalho infantil não é um estágio remunerado na venda familiar ou, pior, uma simpática tarde cortando a grama da Casa Branca, como sugeriu Bolsonaro.  Trabalho infantil é um fardo que acomete 2,4 milhões de crianças no Brasil – ou 6% da população entre 5 e 17 anos. Trabalho infantil é o menino que não pode ir à escola porque precisa vender bala no sinal de trânsito, é a menina “adotada” por uma família para fazer serviço doméstico não remunerado, é a criança que corta cana, numa fazenda, para ajudar na renda miserável da casa. Trabalho infantil é um crime contra um direito assegurado por lei para a criança, é o assassinato de um futuro que nunca pode ser construído, por falta de investimento na infância.

A ignorância de Bolsonaro talvez decorra do fato que o trabalho de menores de 16 anos só foi proibido na Constituição de 1988. Até então, toda criança com mais de 12 anos estava apta a entrar no mercado de trabalho. Por isso que o jornalista espanhol Juan Arias, do El País, relembrou uma frase que ouviu assim que chegou ao Brasil, do economista Paulo Renato Souza, ministro da Educação durante o governo Fernando Henrique: “Para que você entenda o problema com o qual estamos lutando, tem de saber que há menos de 40 anos ninguém colocava em discussão que a escola era apenas para os filhos dos ricos. Os pobres, que seriam a maioria, deviam trabalhar como seus pais. Como sempre foi”.

Ao defender a ideia medieval de que o trabalho enobrece a criança, Jair Bolsonaro endossa o nosso passado escravocrata e atropela os ganhos civilizatórios conquistados a duras penas nas últimas décadas. Além disso, ignora “a realidade de mais de dois milhões de crianças massacradas pelo trabalho em condições superiores às suas forças físicas e mentais, dos mais de duzentos óbitos e dos mais de 40 mil crianças e jovens que sofreram mutilações e deformações decorrentes de acidentes de trabalho entre 2007 e 2017”, como bem frisou a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho.

É triste terminar um texto lembrando o óbvio. Mas criança é para estudar e brincar. E adulto é para trabalhar – e não para brincar de presidir o país.

Quer saber mais?
O jornalista Guilherme Amado revelou que o combate ao trabalho escravo – que inclui o trabalho infantil – diminuiu 57% no governo Bolsonaro

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Conheça os 20 artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente (aquele que Bolsonaro quer “rasgar e jogar na latrina”) que versam sobre trabalho infantil

Quer protestar?
Escreva ao Ministério do Trabalho (mentira, ele não existe mais)

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