Brasil: de Antônio Nunes a Augusto Nuness

11/11/2019
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Pânico no YouTube

Olá, você conhece o Antônio Nunes?

Antônio Nunes é o nome artístico, por assim dizer, de um norueguês chamado Ove Nordeide, que passava férias em Fortaleza, em outubro de 2009, quando foi entrevistado na praia pelo programa “Pânico na TV”. Convidado a se apresentar, pegou o microfone, berrou “Antôniooooo Nunes!”, e bateu forte com a palma da mão na perna direita. A cena, completamente nonsense, transformou-o instantaneamente num meme (a Folha explicou a estranha gênese da história).

O vídeo teve mais de 1 milhão de acessos no YouTube (à época uma enormidade). Embalado pelo sucesso do personagem, o “Pânico” inventou quadros dedicados a Antônio Nunes, e passou a pedir que celebridades repetissem o bordão (“Por que eu faria isso?”, perguntou Justin Bieber, antes de bater na própria perna). No ano seguinte, o tucano Aloysio Nunes Ferreira também surfou a onda desbravada por seu quase xará durante sua campanha ao Senado por São Paulo.

E Augusto Nunes, você conhece?

Sim, conhece, infelizmente.

O curioso – para não dizer trágico – é que Augusto Nunes teve uma história importante no jornalismo (apresentou o “Roda Viva” por duas temporadas; ocupou cargos de chefia na Época, no Jornal do Brasil, no Estadão e no Zero Hora) antes de virar colunista de estimação da família Bolsonaro.

Jair Bolsonaro sempre teve horror à imprensa (e a qualquer mecanismo de fiscalização que garanta o funcionamento de uma democracia). Atacou a Folha, durante a campanha, quando o jornal descobriu uma funcionária de seu gabinete vendendo açaí em Angra dos Reis. Atacou o Valor, depois de eleito, publicando uma Medida Provisória que corta sua principal fonte de renda. Atacou a Globo, dez dias atrás, usando seus dotes dramáticos para superar a performance do ator suíço Bruno Ganz no filme “A Queda”.  Ameaçou não renovar a concessão da emissora; cancelou as assinaturas que o governo tinha da Folha, encorajou o boicote de empresas que anunciam no jornal. Investiu 99 vezes contra a imprensa entre janeiro e outubro deste ano.

Até aí nada de novo. O que houve de novidade, na última semana – para além da decisão do STF sobre segunda instância, da libertação de Lula e do golpe na Bolívia contra Evo Morales – foi o fato de uma agressão contra a imprensa (nesse caso, uma agressão literalmente física contra um um jornalista) ter partido de alguém que integra a própria imprensa. Augusto Nunes já havia manchado sua história de forma baixa, canalha, e nada “irônica” – como ele insiste em apregoar – quando incluira os filhos de Glenn Greenwald num comentário que deveria versar apenas sobre os rumos do país. Desceu mais baixo no esgoto civilizatório quando confrontado com sua própria covardia.

O problema, aqui, é que o fato não se restringe ao soco mambembe desferido por Nunes em Greenwald. O que Nunes não percebe, em seu torpor tão autoritário quanto  infantil, é que quando um jornalista soca outro, em rede nacional, quem perde a luta é toda a imprensa. Ao romper uma barreira cívica, “autorizando” a agressão contra um jornalista, Augusto Nunes fez o país subir mais um degrau na escadaria que leva ao fascismo.

E o que o simpático Antônio Nunes tem a ver com isso?

A lembrança de que apenas dez anos atrás, quando se falava em “tapa” e “Nunes”, o Brasil se unia no riso. Apenas dez anos atrás…

Quer saber mais?
Não só de ataques à imprensa vive Bolsonaro. Segundo o Aos Fatos, o presidente já deu 456 declarações falsas ou distorcidas desde que assumiu o mandato

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Entenda a agressão de Nunes a Greenwald no contexto do Brasil polarizado de hoje

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