Brasil: de player a pária ambientals

26/08/2019
_____

NÃO ESTAMOS AFIRMANDO

“Pode estar havendo, não estou afirmando, ação criminosa desses ongueiros para exatamente chamar a atenção contra a minha pessoa.” A frase temerária foi dita nesta semana por aquele que nos governa, como tentativa de explicar o aumento de 82% de queimadas na Amazônia (aumento que deixou o céu de São Paulo – que fica a 2 mil quilômetros  – preto no meio da tarde).

Para além da desonestidade, da má fé e da feiura intrínseca, a frase tem algo de notável, como bem apontou o humorista Ricardo Araújo Pereira: o fato de que o termo “não estou afirmando” abre espaço para todo tipo de especulação. Por isso, em homenagem a Bolsonaro (e em agradecimento a Araújo Pereira), hoje não vamos afirmar nada.

Não estamos afirmando, mas a política de desmatamento promovida pela dobradinha Salles-Bolsonaro transformou o Brasil num “pária ambiental” (na verdade, quem afirmou isso foi o sociólogo Demétrio Magnoli, que também chamou atenção para outro feito notável da política externa bolsonarista: os ataques a Alberto Fernández e Cristina Kirchner – favoritos a presidente e vice na eleição Argentina – , rompendo a relação diplomática “com um governo que ainda nem existe”).

Não estamos afirmando, mas o Brasil não é essa potência mundial, qual fantasia a tríade formada por um presidente, um tuiteiro da Virgínia e um chancelelé (na verdade, quem está afirmando isso é o czar da soja e ex-ministro da Agricultura do governo Temer, Blairo Maggi, que tem alertado para um possível boicote internacional: “Se plantarmos em áreas desmatadas, eles não compram. Somos apenas um player – e pior, substituível”).

Não estamos afirmando, mas as grosserias disparadas por Bolsonaro e pelo todo diplomático Eduardo contra o presidente da França perigam resultar numa enorme perda de imagem e soft power do Brasil na política internacional (na verdade, quem afirmou isso foi o ex-ministro da Fazenda e ex-embaixador do Brasil em Washington, Rubens Ricupero, que ainda alertou para o fato de que tal embate pode jogar por terra o bilionário acordo comercial entre União Europeia e Mercosul).

Não estamos afirmando, mas o antiministro do Meio Ambiente foi tão eficiente na sua política de desmonte da pasta (e por consequência, de destruição da natureza), que conseguiu o feito raríssimo de desagradar gregos e troianos. Que o digam a ex-ministra Marina Silva, que definiu sua administração como criminosa, ou o deputado estadual pelo Rio Chicão Bulhões, que protocolou um requerimento pedindo a expulsão de Salles do partido Novo, sob a alegação de que ele demitiu profissionais qualificados, desdenhou de dados científicos e revogou políticas públicas, causando “dano à reputação” do partido.

Não estamos afirmando, mas o aumento de 188% no número de queimadas no Acre levou o governador Gladson Cameli, do PP – aquele que havia sugerido aos produtores rurais que não pagassem multas ambientais – a decretar estado de emergência. Não estamos afirmando – quem afirmou foi próprio Cameli -, mas a situação é tão grave, que a capital Rio Branco periga deixar seus 320 mil moradores sem água.

Não estamos afirmando, mas 57% dos brasileiras acham que as declarações de Bolsonaro atrapalham o andamento do país (quem falou foi a Veja). Não estamos falando, mas a união de belicismo verbal com extermínio ambiental fez Bolsonaro ser chamado de “câncer” pelo jornal francês Libération. O presidente também foi capa do espanhol El País (“A Amazônia brasileira arde”), do italiano La Repubblica (“O mundo contra Bolsonaro”), e do americano Washington Post (“Enquanto o mundo queima, Bolsonaro distribui pancadas”).

Não estamos afirmando, mas apesar das barbaridades cometidas contra ela e contra o presidente francês Emmanuel Macron, a chanceler alemã Angela Merkel recomendou ao G7 o uso de psicologia infantil na interação do grupo com Bolsonaro, de forma a não fortalecer a narrativa dos sonhos de qualquer governante populista de que o país está sob ataque externo.

Não estamos afirmando, mas ao contrário do que prega a lógica presidencial, todos as frases aqui afirmadas são baseadas em fatos ou em opiniões fundamentadas. Já Bolsonaro “fala o que pensa, principalmente quando não pensa”. Quem afirmou isso, em sua última coluna em vida, foi a escritora Fernanda Young, a quem a edição de hoje é dedicada.

Quer saber mais?
Não estamos afirmando, mas no dia 10 de agosto ocorreu o Dia do Fogo, maior queimada da história do Pará, provocada por produtores em apoio às declarações de Bolsonaro

Quer se manifestar?
Não estamos sugerindo, mas você pode sempre escrever para o antiministro do Meio Ambiente, ou para o próprio presidente Bolsonaro

MemeNews é financiado pela Open Society Foundations, por meio de um projeto que pretende unir humor e mudanças sociais.