Com quantas florestas se faz um autódromo?s

01/07/2019
_____

Pista rápida para o atraso

Menino-homem que é menino-homem – desses que já usam azul no berço, que fazem arminha com a mão e que não mamam em mamadeira erótica – alguma vez na vida já brincou de autorama.

Com o passar do tempo, o menino-homem cresce, e troca certos gostos da infância por outros mais maduros. O problema é quando a troca é literal: quando a arminha com a mão vira um decreto inconstitucional que autoriza o porte de armas, ou quando o gosto pelo autorama se transforma num projeto que pode assassinar milhares de árvores para a construção de um autódromo.

É o que ocorreu com o menino-homem que governa o Brasil. Depois de suspender a instalação de 8 mil radares eletrônicos nas estradas, e de apresentar um projeto de lei que dobra o limite de infrações permitidas no trânsito, Jair Bolsonaro deu novos ares a sua obsessão por velocidade. No início do mês, o presidente da República virou fiador moral da tentativa sem sentido de levar a Fórmula-1 para o Rio de Janeiro – nem que para isso tenha que colocar uma floresta abaixo.

O projeto de levar a Fórmula-1 para o Rio existe de 2010, mas permaneceu oito anos em estado vegetativo, até que a prefeitura resolveu ressuscitá-lo no ano passado. A área de 2 milhões de m² reservada para o autódromo fica num bairro de subúrbio, chamado Deodoro, onde está a maior parte do complexo militar do Rio de Janeiro. Só que o terreno, que hoje pertence ao Exército, abriga a Floresta do Camboatá, única porção plana de Mata Atlântica ainda remanescente na cidade.

Para que a pista seja construída, será necessário derrubar 180 mil árvores – ou 75% da floresta, onde vivem espécies ameaçadas como o pau-brasil e o jacarandá-da-bahia. A derrubada resultaria também no deslocamento – e, em muitos casos, na morte – de animais que lá residem, como o jacu, o cachorro do mato, o macaco-prego e o tamanduá. Bolsonaro defende que uma obra desse porte ajudaria a gerar milhares de empregos. Mas a que preço?

Em 2014, o estado do Rio gastou R$ 1,3 bilhão (já incluído o superfaturamento), para que o Maracanã recebesse sete jogos da Copa do Mundo. Hoje o estádio é um elefante branco que gerou prejuízo de R$ 247 milhões para sua administradora. Em 2016, município, estado, governo federal e iniciativa privada gastaram R$ 41 bilhões em obras para o Rio sediar as Olimpíadas. O Parque Olímpico – que foi construído, aliás, sobre um autódromo semi-abandonado – está sucateado; em 2017, gerou um déficit de R$ 54 milhões para a prefeitura.

Para além do prejuízo fiscal, o legado deixado pela Copa e pelas Olimpíadas foi, no mínimo, contestável. Ao contrário do prometido, as lagoas da cidade e a Baía de Guanabara nunca foram despoluídas. Já as obras urbanas resultaram no deslocamento, entre 2009 e 2015, de 22.059 famílias – que foram obrigadas a abandonar suas casas em função de eventos dos quais não faziam parte.

Sim, porque boa parte da população ficou de fora das festas – fato que há de se repetir com o autódromo, afinal, o ingresso mais barato para a etapa da Fórmula-1 deste ano, que vai ocorrer em São Paulo, custa R$ 610 reais (pois é, e não custa lembrar que São já tem um autódromo – ou, como definiu o jornalista Elio Gaspari, uma cicatriz murada, no meio da cidade, que acrescentaria muito mais à população caso fosse transformada em um parque).

A noção de progresso de Bolsonaro é arcaica, oriunda de uma época em que a natureza ainda era vista como uma inimiga selvagem a ser domada. Como é pouco provável que essa noção venha a mudar, cabe a nós, da sociedade civil, fazer pressão para evitar ao máximo que ela seja implementada. O país não precisa de mais um paquiderme esportivo – e as árvores e bichos que na floresta do Camboatá habitam não merecem ser assassinadas por um capricho de menino-homem.

Quer saber mais?
O biólogo André Ilha lembrou que existe uma área desmatada, próxima à Floresta do Camboatá, que poderia abrigar o autódromo

Aliás…
Como o Brasil nunca falha, o dono da empresa que ganhou a concorrência para a construção do autódromo é sócio de outra empresa, que ajudou a prefeitura do Rio a preparar o edital de licitação

Quer se manifestar?
Assine a petição em defesa da floresta do Camboatá

MemeNews é financiado pela Open Society Foundations, por meio de um projeto que pretende unir humor e mudanças sociais.