Evangélicos e ativistas contestam decreto das armass

13/05/2019
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Bolsonaro, o Norvana brasileiro

Na semana passada, o cronista Antonio Prata escreveu que Jair Bolsonaro é uma força capaz de unir o Brasil (contra ele, claro): “Vejo Renato Janine Ribeiro, por exemplo, buscando pontos de concordância numa entrevista do Luciano Huck. Amigos de esquerda dando share nas colunas do Reinaldo Azevedo. Eu mesmo concordo com tudo o que o Demétrio Magnoli escreve e dou like atrás de like nos tuítes do meu ex-antípoda Carlos Andreazza.”

De fato, Bolsonaro tem unido polos até há pouco inimagináveis. Exemplo número 1: o encontro recente de sete ex-ministros do Meio Ambiente – ou seja, gente que trabalhou nos governos Fernando Henrique, Lula, Dilma e Temer – para protestar contra as barbaridades cometidas por Ricardo Salles. Exemplo número 2: o apoio de alunos do Colégio Militar aos do Pedro II – duas escolas federais com um histórico de rivalidade, no Rio de Janeiro – em protesto, durante visita de Bolsonaro, contra os cortes orçamentários promovidos por seu ministro da Educação.

Mas o exemplo mais gritante da última semana – aquele que foi capaz de unir todas as tribos, como fez o Norvana – se deu em reação ao novo decreto que liberou o porte de armas a políticos, caminhoneiros, advogados em atuação pública, agentes de trânsito, jornalistas que cobrem polícia e, segundo o The piauí Herald, padres, parteiras, cães farejadores e parças do Neymar. O texto também aumentou o limite anual de munição que um civil de 50 para 5 mil cartuchos, além de liberar o acesso a armas até então de uso exclusivo das Forças Armadas.

Como o decreto é em grande parte inconstitucional, não tardou a surgir uma articulação para derrubá-lo. Até aí morreu Neves (com tiro de pistola 9mm, que acaba de ser liberada). O lado inesperado é que na Câmara, parte da reação foi orquestrada por parlamentares da bancada evangélica – grupo que apoiou Bolsonaro durante as eleições, e que anda descontente com um projeto do governo de taxar as igrejas. O presidente da casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), fez coro, avisando que o texto tem algumas inconstitucionalidades, que hão de ser filtradas pelo Congresso Nacional.

Além de desagradar evangélicos e democratas, o decreto também causou calafrios em filiados da Rede Sustentabilidade, que pediram a anulação do texto no Supremo Tribunal Federal A ministra Rosa Weber deu prosseguimento à ação, estabelecendo um prazo de cinco dias para que a Presidência da República se explique.

Na imprensa, articulistas que sempre estiveram em pólos opostos deixaram a polifonia de lado e cantaram em uníssono contra a decisão. Jânio de Freitas disse que armar a imprensa é, no fundo, “atrair tiros sobre jornalistas”. Reinaldo Azevedo chamou o decreto de ilegal, por contrariar uma decisão do Congresso, além de moralmente criminoso.

Também houve reação na sociedade civil. O Instituto Sou da Paz explicou que ampliar a venda de munição sem exigir que os lotes sejam marcados “é um convite a desvios e ao agravamento da violência armada”. Também lembrou que armar a população não é política de segurança pública – é apenas um upgrade no catálogo de vendas, feito para um grupo capaz de pagar R$ 4 mil por uma arma.

Armar civis não reduz a criminalidade. Os Estados Unidos são o país do mundo com o maior número de armas de fogo – absurdas 394 milhões, ou 120 armas para cada grupo de 100 habitantes. São também o país com a maior população carcerária e com o maior número de mortes por tiro entre os países desenvolvidos. Só neste ano foram 136 mass shootings, com 156 mortos.

A luta contra o libera geral do porte de armas não é de esquerda, nem de direita. Não é conservadora, nem progressista. Não é gay, nem hétero. Não é coentro, nem salsinha. É a luta pelo direito mais básico que temos. É a luta contra a barbárie, contra o lobby das armas, e em favor dos freios que nos proporcionam viver em sociedade. Essa luta deveria ser de todos.

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