Itamaraty: o McDonald Trumps

15/07/2019
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Uma embaixada pro filhão

Na semana passada Jair Bolsonaro anunciou que pretende indicar seu filho Zero Três, Eduardo, para o cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos. O anúncio foi feito dois dias depois que o deputado federal completou 35 anos, idade mínima necessária para assumir o cargo.

Bolsonaro justificou sua decisão dizendo que o filho “é amigo dos filhos do Donald Trump, fala inglês e espanhol, e tem uma vivência muito grande do mundo”, como se diplomacia fosse feita na base da amizade. Já Eduardo se valeu da lógica paterna de inviabilizar qualquer debate construtivo, dando uma resposta absurda a uma pergunta séria: “Já fiz intercâmbio, já fritei hambúrguer lá nos EUA, no frio do Maine, estado que faz divisa com o Canadá.”

Além da sua experiência nas chapas do Maine, Eduardo é bacharel em direito pela UFRJ e escrivão da Polícia Federal. Na Câmara, preside a comissão de Relações Exteriores, o que serviu de justificativa para acompanhar o pai nas viagens oficiais. Em abril, esteve por conta própria na Hungria e na Itália, para conversas com líderes de extrema-direita. Em novembro do ano passado, também foi, sozinho, para os Estados Unidos, onde encontrou o genro de Trump, Jared Kushner, e se deixou fotografar usando um boné escrito “Trump 2020”.

Acontece que comandar uma embaixada (ou melhor, comandar a embaixada mais importante do planeta) é um tanto diferente de apoiar um candidato ou cultivar relações de amizade. Como bem lembrou a jornalista Daniela Lima, o alinhamento ideológico a Donald Trump não exclui o fato de que Brasil e Estados Unidos são rivais em vários negócios, como nos bilionários mercados da soja e da carne.

Para que a nomeação seja concretizada, Eduardo terá de passar por uma sabatina no Senado, que tem a prerrogativa de aprovar ou não o seu nome para o cargo. Uma eventual aprovação obrigaria o filho Zero Três a renunciar ao mandato de deputado, já que a Constituição proíbe um parlamentar de comandar uma missão diplomática. Como seguro morreu de velho – e como não há garantia de que o amigão Donald Trump venha a ser reeleito – o governo já corre atrás de uma PEC do deputado Capitão Augusto (PL-SP), que trocaria a renúncia por uma licença amiga e temporária. Ou seja: uma mudança na Constituição, que demandaria esforço gigantesco – vide a reforma da Previdência – apenas para proteger o futuro do príncipe-herdeiro (todo governo tem a Lei Teresoca que merece).

A proposta, por absurda, conseguiu chocar tanto o corpo diplomático do Itamaraty – que esperava a indicação de um nome conservador, mas pelo menos experiente -, quanto os grupos de direita – que esperavam, qual prometido por Bolsonaro, que as nomeações seguiriam critérios técnicos. Por incrível que pareça, desagradou até ao tuiteiro Olavo de Carvalho, que preferia ver Eduardo presidindo uma eventual CPI sobre o Foro de São Paulo, que “arrisca ser o acontecimento mais importante da nossa história parlamentar” (haja maluquice…)

O trabalho em família só não foi recebido com desconfiança pelo chanceler Ernesto Araújo, que disse ver “com muito bons olhos essa ideia”. Não que Araújo seja assim um grande exemplo na chancelaria. Salvo pelo acordo comercial firmado com a União Europeia (acordo, vale lembrar, que vinha sendo negociado há mais de uma década), sua gestão tem se caracterizado pela abordagem de grandes questões internacionais, como a orientação de que todo diplomata do Itamaraty tenha claro “o entendimento do governo brasileiro de que a palavra gênero significa o sexo biológico: feminino ou masculino”.

O caso de Eduardo Bolsonaro não chega a configurar a primeira vez que alguém externo ao corpo diplomático é indicado para tão importante cargo. Mas é difícil imaginar que o filho Zero Três seja tão capacitado quanto Joaquim Nabuco, Walther Moreira Salles e Roberto Campos, para ficar apenas em alguns nomes conhecidos – e externos ao Itamaraty – que já ocuparam a embaixada americana.

É duro, mas ainda assim é preciso concordar com o guru dos tuítes proctológicos: o Brasil de fato só tem a ganhar se Eduardo ficar para investigar o Foro de São Paulo.

Quer saber mais?
A Controladoria-Geral da União, que é ligada ao Executivo, fez um duplo twist carpado na Constituição para dizer que não há nepotismo na indicação de Eduardo Bolsonaro

Aliás…
Essa não é a primeira vez que Papai Bolsonaro privilegia a família (a dele)

Quer conhecer os últimos embaixadores do Brasil nos EUA?
Você pode saber um pouco mais do perfil de cada um, ou pode comparar os seus currículos com o do mais novo candidato ao cargo

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