Um manual ilustrado da velhacarias

28/10/2019
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Matou o Ministério e foi ao Twitter

Olá, você sabe identificar um velhaco?

Um velhaco é um sujeito de caráter frágil, que não consegue admitir um erro sem projetar a culpa no outro. Exemplo hipotético: o sujeito comando um ministério responsável pela conservação ambiental; há um acidente ambiental; o sujeito passa 41 dias inerte, até que resolve, na mais pura velhacaria, atacar quem realmente luta pela preservação ambiental. Eis aí um velhaco.

Outro exemplo hipotético, de outra encarnação, igualmente hipotética: o sujeito comanda uma secretaria estadual também responsável pelo meio ambiente. Nesse posto, sempre hipotético, autoriza o garimpo em áreas protegidas. O sujeito é condenado pela Justiça. Defende-se com aquela velha ladainha velhaca de que política ambiental deve ser feita com desapego ideológico. Perde os direitos políticos por três anos – e mesmo assim se candidata a um cargo político. Perde o direito de integrar a administração pública – e mesmo assim é contratado pela administração pública. Eis aí um velhaco.

Então o velhaco, velhaco que é, sobe na pirâmide da velhacaria. E em posse de um novo cargo, segue a regra de ouro do manual da incompetência: destruir sempre, construir, jamais. Rompe contratos com ONGs, implode fundos de preservação, demite especialistas em clima, impede fiscais ambientais de trabalhar. Os exemplos, claro, são hipotéticos.

Acontece que a velhacaria cobra um preço – que pode ser uma queimada generalizada na Amazônia, uma nuvem negra numa tarde de São Paulo, ou um mar de óleo no litoral do Nordeste. “Mas a culpa não é minha”, há de dizer o sujeito, no que pode até estar certo. O problema é que, mesmo sem culpa, a responsabilidade pela solução ainda recai sobre ele – afinal, ele é um funcionário do povo. E é aí que reside a diferença entre um boneco ventríloquo e um político preparado. É da precariedade na reação que emerge (ou submerge) o velhaco.

Queimar pontes (e florestas?) pode até gerar um efeito midiático. Mas sem interlocução com o seu próprio corpo técnico, não há velhaco que sobreviva para além das redes sociais. O bom e velho exemplo hipotético: imagine que o sujeito tenha duas autarquias ambientais sob sua ingerência. Imagine que ele acuse uma delas de exagerar na cobrança de multas ambientais. Imagine que uma segunda autarquia, especializada no manejo da natureza, tenha toda a sua chefia aparelhada por policiais militares. Imagine agora que o sujeito precise recorrer a essas autarquias quando de um acidente ambiental. De onde virá o diálogo? Para quem telefonar?

Então o sujeito mergulha no luto de quem matou o ministério e foi ao cinema (mentira, ele foi ao Twitter). Primeiro atravessa 41 dias de negação, na esperança indolente de que o problema se resolva por si. Depois entra na fase da raiva, atacando quem tenta remediar a tragédia (nessa fase, publica um vídeo editado de forma velhaca contra o seu objeto de rancor, e ainda faz uma suposição absolutamente irresponsável – ou seria apenas velhaca? – com uma foto antiga, de um navio pequeno, para sugerir que a tal tragédia poderia ter sido fabricada). É o Oscar da velhacaria.

É triste ter que voltar sempre ao mesmo personagem. É triste falar de uma velhacaria tão mambembe uma semana depois que 1 milhão de chilenos foram às ruas para reivindicar mais justiça social. É triste não escrever sobre o fato de que o mandante do crime contra Marielle Franco continua solto, mesmo havendo indícios tão fortes contra um deputado estadual. É triste não repercutir a “pica do tamanho de um cometa” que o Ministério Público teria para para enterrar na turminha do Queiroz. É triste não falar sobre a nova presidente da Casa de Rui Barbosa – fundação federal responsável por um dos mais valiosos acervos literários do país -, que lá chegou, a mando do pastor Marcos Feliciano, com um currículo literário que inclui a autoria do livro “As aventuras de Patrick na fazenda”.

Mas é o que diz o ditado: respeite os mais velhacos.

Quer acompanhar de perto?
Há dois perfis no Twitter para quem está interessado em acompanhar cada passo da destruição velhaca: um do Fiscal do Ibama e outro do ambientalista André Aroeira

Quer saber mais?
Duas longas reportagens – uma da revista piauí e outra da Época – também pintaram o terrível quadro de desmonte do MMA

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