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25/11/2019
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Marielle: 621 dias depois

Em março de 2018 a vereadora pelo PSOL Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, foram assassinados à noite, dentro do carro, em uma esquina escura do bairro do Estácio, no Rio de Janeiro. Passados 621 dias, o crime já teve o vereador Marcello Siciliano (PHS), o ex-deputado estadual Domingos Brazão (MDB) e agora o príncipe herdeiro Carlos Bolsonaro (PSC) como suspeitos. Segue sem solução.

Marielle Franco era negra, era mãe, era lésbica e era cria de uma favela. Derrubou um sem número de barreiras sociais para deixar a vida como vendedora ambulante, no bairro da Maré, e se formar em Ciências Sociais pela PUC do Rio de Janeiro. Em 2006, começou a trabalhar como assessora do então deputado estadual Marcelo Freixo, também do PSOL. Dez anos depois, foi eleita vereadora com 46 mil votos.

Na Câmara Municipal, Marielle foi presidente da Comissão de Defesa da Mulher e relatora da Comissão Especial que monitorou a intervenção militar imposta pelo governo Temer no Rio de Janeiro.  Apresentou dezesseis projetos de lei, dois dos quais foram aprovados em vida: um regulando o serviço de mototáxi – importante meio de transporte nas favelas – e outro criando novos centros de parto humanizado. Outras cinco propostas – que iam da criação de creches noturnas ao cumprimento de medidas socioeducativas para menores infratores – foram aprovadas depois de sua morte.

Por ora, a investigação sobre a morte de Marielle e Anderson segue a cargo da Polícia Civil do Rio de Janeiro, que fez um trabalho exemplar para chegar aos executores: os ex-policiais militares Elcio Queiroz e Ronnie Lessa – esse vizinho de frente, na Barra da Tijuca, do presidente Jair Bolsonaro. Estranhamente, o delegado Giniton Lages, responsável pela apuração, foi afastado dias depois de divulgado o resultado. Desde então, nada de concreto foi descoberto sobre o mandante.

No final do mês passado, o Jornal Nacional revelou que no dia da morte de Marielle, o carro dirigido por Elcio Queiroz havia tido a entrada no condomínio autorizada não por Ronnie Lessa, mas pelo próprio Jair Bolsonaro. Dali, Lessa e Queiroz saíram para a execução da vereadora. Na semana passada, em depoimento à Polícia Federal, o porteiro responsável por tal alegação não soube explicar porque anotou que o carro foi para a casa 58 (a de Bolsonaro) no lugar da 65 (a de Lessa). Disse ainda que o nervosismo o havia feito dizer que foi o “seu Jair” quem liberara o acesso pelo interfone. A menção ao nome do presidente – ainda que possivelmente equivocada, já que Bolsonaro de fato não estava no condomínio no horário alegado – pode levar à federalização do caso.

Em situação normal, a federalização poderia ser bem vinda, dado que a Polícia Federal tem mais recursos e menos envolvimento com as milícias do Rio de Janeiro. O problema é que além de envolver o nome de Bolsonaro, a Polícia Civil também trabalha com uma linha investigativa em torno do seu filho Zero Três, o vereador Carlos, heavy user de redes sociais, que apagou todos os seus perfis na semana retrasada. Ou seja: um caso de assassinato envolvendo o nome de dois Bolsonaros passaria a ser tocado por Sérgio Moro e Augusto Aras, dois campeões em subserviência ao clã Bolsonaro.

A federalização vai ser decidida pelo STJ, mas já é alvo de críticas da família de Marielle. Uma carta assinada pelos pais, irmã, filha e viúva da vereadora diz que “a transferência das investigações para a Polícia Federal e o Ministério Público Federal representarão um retrocesso para a elucidação do crime”. O temor é que a federalização dê a um presidente que não tem pudores de usar o cargo em seu benefício e em benefício dos seus filhos o poder de controlar o resultado da investigação.

O legado de Marielle vive. Três ex-assessoras suas – Dani Monteiro, Mônica Francisco e Renata Souza – foram eleitas deputadas estaduais em 2018. Talíria Petrone, sua amiga e companheira de partido, conquistou um mandato de deputada federal. Em seu nome foi criado um programa de desenvolvimento de lideranças femininas negras e uma bolsa de estudos, para pesquisas sobre justiça social, violência urbana e direitos humanos, na universidade americana Johns Hopkins. A Mangueira foi campeã com um samba que a colocava entre outras lideranças negras do Brasil. Sua dissertação de mestrado sobre as Unidades de Polícia Pacificadoras foi lançada em livro. Rio, Berlim, Paris e Salvador ganharam ruas com seu nome.

Ainda assim, passados 621 dias, a pergunta sobre quem mandou matar Marielle Franco segue sem resposta. É fundamental que nunca deixemos de perguntá-la.

Quer saber mais?
A BBC Brasil reuniu as principais dúvidas para o esclarecimento do assassinato de Marielle

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