Míriam Leitão: inimigas

22/07/2019
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A política do ódio

Na semana passada, a organização da Feira do Livro de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, cometeu um ato de uma covardia ímpar, cancelando o convite feito à jornalista Míriam Leitão e ao seu marido, o sociólogo Sérgio Abranches, para participar do evento. A decisão foi tomada após o surgimento de uma petição online, em que moradores se opunham à presença de Míriam na cidade em função de “seu viés ideológico”. A direção da Feira alegou que não poderia garantir a segurança da jornalista em um município que deu 83% dos votos a Jair Bolsonaro. Para quem não sabe, o nome disso é fascismo.

E como reagiu a autoridade mais alta da República – a quem deveria caber um mínimo de serenidade, para o bem do país? Primeiro Bolsonaro minimizou as ameaças, dizendo que Míriam Leitão deveria aprender a ser criticada. Depois mentiu, dizendo que a jornalista “estava indo para a guerrilha do Araguaia” quando foi presa pelos militares, durante a ditadura. Para fechar com chave de golden shower, ainda menosprezou uma tragédia ocorrida na vida da articulista: “Ela conta um drama todo, mentiroso, que teria sido torturada , sofreu abuso etc. Mentira. Mentira”.

Míriam Leitão nunca chegou perto de nenhuma ação armada durante a Ditadura Militar. Limitou-se a participar de reuniões, distribuir panfletos e pichar muros com palavras de ordem. Presa em 1972, foi torturada grávida, chegando a ser trancada em um quarto escuro com uma cobra. Passado esse período, Míriam Leitão tornou-se uma das jornalistas de economia mais respeitadas do país. Passou anos criticando os governos petistas, e manteve o mesmo tom com a chegada de Bolsonaro ao Planalto. Aí virou inimiga da pátria.

As manifestações políticas no Brasil estão mais violentas. O bolsonarismo não vê opositores, mas inimigos. O movimento, que surgiu a partir do antipetismo, hoje ladra até contra críticos ao PT, como a própria Míriam Leitão ou historiador Marco Antonio Villa, ícone da direita, que foi demitido da rádio onde apresentava um programa após chamar Bolsonaro de “embusteiro”.

Diretamente – e apenas diretamente – Bolsonaro não é culpado pela violência dos seus apoiadores. Mas a cada vez que comete uma atrocidade verbal (ou seja: todo dia), ele estica a corda da convivência mais à direita. Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, Vamos fuzilar a petralhada, Vamos varrer do mapa os bandidos vermelhos – ditas por qualquer pessoa, as frases seriam atrozes. Ditas pelo presidente da República, viram um incentivo institucional à proliferação da atrocidade. E assim se aduba o solo onde floresce o fascismo.

Bolsonaro sabe que o ódio é um caminho para conquistar e manter a lealdade do eleitorado. E ele não está só. Essa mesma lógica alimentou as campanhas de Ricardo Salles (tentou uma vaga na Câmara sugerindo usar balas de fuzil para lidar com os sem terra); de Wilson Witzel (elegeu-se governador no Rio dizendo que sua polícia iria “atirar para matar”); e João Doria (apelidou seu adversário Márcio França de “Márcio Cuba”, de forma a identificá-lo com a esquerda – apesar de França ter sido vice-governador do nada esquerdista Geraldo Alckmin).

E, claro, houve o ponto alto da barbárie. Em um ato de campanha, os candidatos a deputado Rodrigo Amorim (estadual) e Daniel Silveira (federal) quebraram uma placa que homenageava a vereadora Marielle Franco – uma servidora do povo, de um partido de esquerda, brutalmente assassinada no exercício do cargo.  Amorim, o deputado estadual mais votado do Rio, foi ainda mais longe. Pendurou em seu gabinete um pedaço da placa, como se fosse um troféu de guerra. A placa quebrada na parede é a materialização do ódio, um aviso do tratamento reservado ao inimigo, uma certidão lavrada em cartório de que já somos um país fascista.

Houve quem tivesse a esperança de que o candidato Bolsonaro – aquele que apostou na divisão do país para se eleger – se tornaria o estadista Bolsonaro – aquele que uniria o país no momento em que assumisse o cargo. Nada mais ingênuo. Como está em eterna campanha, Bolsonaro parece interessado em dobrar a aposta. O presidente que prometeu governar para todos os brasileiros continua sendo o candidato boquirroto e belicoso, que comemora quando um deputado da oposição deixa o país por medo de ser assassinado, que demite um presidente do BNDES por considerar que ele não está sendo suficientemente persecutório, que reduz o Nordeste – única região onde não foi tão votado – a uma grande “Paraíba”, e que promete acabar com uma agência de fomento ao cinema – e, por consequência, ao emprego – por saber que ali trabalham pessoas que pensam de maneira diferente à dele.

Como escreveu Míriam Leitão, “Governar um país não é comandar um programa humorístico. As palavras ‘bizarro’ e ‘tosco’ têm sido usadas com frequência [para se referir aos impropérios de Bolsonaro]. Talvez devamos pensar mais na palavra ‘perigo’.”

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