O projeto nefasto de Flávio Bolsonaros

29/04/2019
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A árvore, essa inimiga

Num artigo excelente, publicado neste mês na revista piauí, o cientista político Marcos Nobre explicou sua tese de que Jair Bolsonaro tem o caos como método de governar: “Não há pretensão de governar para todo mundo. Esse discurso e essa prática seriam típicos do velho mundo da velha política, que era pura enganação. Trata-se, agora, de governar para uma base social e eleitoral que não é maioria, mas é grande o suficiente para sustentar um governo. Algo entre 30% e 40% do eleitorado.”

Essa fidelidade à base seria reafirmada, semanalmente, nos rompantes conservadores. Bolsonaro fala à sua claque quando veta uma propaganda algo descolada do Banco do Brasil, quando exige a saída de uma pessoa progressista de um cargo que nem sequer tem importância no Ministério da Justiça, ou quando anuncia que o Ministério da Educação vai cortar o investimento em cursos de filosofia e sociologia, que correspondem a menos de 1% dos formandos. “Tornar essa base fiel é fundamental para manter o poder”, escreveu Marcos Nobre. “Em momentos críticos, como o das disputas eleitorais, a tática consiste em produzir inimigos odientos o suficiente para conseguir uma ampliação forçada da base e assim conquistar a maioria.”

Mas existe um ponto, no governo Bolsonaro, onde parece haver uma certa sintonia. Algo como um norte, um ideal, uma utopia que une todas as tribos, para onde os ministros, deputados, senadores e tuítes de Olavo de Carvalho, em uníssono, parecem convergir: o meio ambiente. No caso, a destruição do meio ambiente.

Uma das bombas mais recentes foi lançada há duas semanas pelo Filho Zero Um, o senador Flávio “Where in the world is Queiroz Sandiego?” Bolsonaro.

Se já não bastasse empregar laranjas e homenagear milicianos ligados à execução da vereadora Marielle Franco, Flávio deu um afago no pai ao propor um Projeto de Lei, com o senador Marcio Bittar (MDB-AC), que revoga o capítulo do Código Florestal que obriga todo imóvel rural a manter alguma área de vegetação nativa (na Amazônia Legal, por exemplo, essa área tem que equivaler a 80% do terreno). Em outras palavras: MORTE ÀS ÁRVORES, essas esquerdistas comunistas marxistas globalistas que, como bem apontou o cronista Antonio Prata, não pagam imposto e não são donas da terra onde vivem.

Enxergar a natureza – ou o Ibama, ou o ICMBio, ou o Acordo de Paris – como inimiga do progresso agropecuário não é apenas anacrônico. É burro, tosco e suicida. Isso porque o que acontece na Amazônia afeta diretamente a vida de qualquer cidade do país (para não dizer qualquer país do planeta). A floresta é a principal responsável pelas chuvas nas regiões sudeste e parte da centro-oeste. A crise hídrica ocorrida no estado de São Paulo, anos atrás, decorreu, em grande parte, do desmatamento na Amazônia.

A proposta de Flávio Bolsonaro é tão grave que o professor Gerd Sparovek, da Escola Superior de Agricultura da USP, apontou que ela pode gerar uma perda, em área nativa, equivalente a três vezes o tamanho da Bahia. Já o Observatório do Clima lembrou que o Brasil tem mais áreas de produção agropecuária do que protegidas, e que o aumento da produtividade deveria se dar pelo aprimoramento técnico, e não pelo desmatamento.

Se não bastasse, até uma parte do agronegócio se manifestou contra: a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura defendeu o Código Florestal, lembrando que sua implementação foi “o primeiro passo para fortalecer a produção agropecuária” no país, e que o combate ao desmatamento ilegal “contribui para a imagem do setor no exterior, garantindo acesso aos mercados internacionais mais exigentes“.

Como escreveu o editor Leonel Kaz, autor de um livro sobre a Amazônia, “cada um de nós, em Nova York ou Brasília, no bairro da Muzema ou na Vieira Souto, vai sentir na pele, na dizimação das condições ambientais mínimas, o resultado inexorável desta absurda proposta. Não é exagero dizer que a Amazônia não está longe; ela está ao nosso lado, mais que nossos próprios filhos, porque é ela que nos dá água, é ela que nos permite respirar. Temos de nos unir e nos revoltar, por todas as vias legais, para impedir este massacre da Amazônia. E de nós mesmos.”

Quer saber mais?
O antiministro do Meio Ambiente nomeou militares para a cúpula do ICMBio, e  a decisão foi criticada pelos funcionários do órgão

Quer saber mais uma do antiministro?
O MMA também tirou do ar tirou do ar dados ambientais sobre políticas de conservação e utilização sustentável de unidades de conservação

Quer saber o que anda fazendo o Ministério da Agricultura?
A pasta enviou uma nota ao MMA pedindo o fim da lista de animais aquáticos ameaçados de extinção

Quer se manifestar?
Pressione os autores da lei, Flavio Bolsonaro e Marcio Bittar
https://twitter.com/FlavioBolsonaro

https://twitter.com/marciombittar

O PL está na Comissão de Meio Ambiente do Senado, sob relatoria de Roberto Rocha (PSDB-MA)
https://twitter.com/SigaRoberto_

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