O que esperar de Bolsonaro na ONUs

23/09/2019
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O Anti-Onu

Amanhã começa a 74ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, com a presença dos 193 países membros e mais dois observadores, o Vaticano e a Palestina. A Assembleia Geral é uma espécie de reunião de condomínio (só que do planeta), onde são votados temas que dizem respeito ao orçamento e à própria estrutura da ONU. Além disso, os países podem receber indicações – que pesam mais no campo simbólico do que prático, por não serem vinculantes.

Por se tratar do maior encontro multilateral do mundo, a Assembleia Geral é historicamente o espaço da discussão dos grandes temas. A reunião de 1960 resultou numa carta defendendo o direito dos povos à autodeterminação – isso numa época em que vários países da África ainda eram subordinados à Europa. Em 1968, a Assembleia condenou publicamente o regime sul-africano do apartheid. Em 1972 falou-se pela primeira vez no combate ao terrorismo. Em 1974, Yasser Arafat defendeu o estado da Palestina. Nesses 73 anos, a Assembleia Geral tornou-se um lugar de acolhimento aos direitos humanos, de combate à pobreza, e da tentativa de construir um futuro minimamente sustentável.

Desde 1955, o Brasil é o primeiro país a discursar na Assembleia Geral, tradição que decorre do papel de conciliador que o país sempre ocupou, principalmente após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando manteve boas relações com os Estados Unidos e com a União Soviética.

Por abrir o evento, o discurso do Brasil costuma receber mais atenção. Em 1985, José Sarney propôs “uma tarefa conjunta de credores e devedores” para solucionar a dívida externa dos países em desenvolvimento. Em 1990, Fernando Collor defendeu que países mais pobres tivessem acesso a tecnologias para a preservação do meio ambiente. Em 2001, Fernando Henrique Cardoso ameaçou quebrar patentes de medicamentos em nome do “imperativo de atender aos mais pobres”. Luís Inácio Lula da Silva propôs a criação de um comitê mundial de combate à fome. Dilma Rousseff fez um elogio ao papel das mulheres na política e pediu a ampliação do Conselho de Segurança – bandeira que também viria a ser defendida por Michel Temer.

Claro, palavra dada nem sempre é palavra empenhada. A capacidade restrita de decisão da ONU por vezes gera encontros mais protocolares do que pragmáticos. Como bem frisou o jornalista Mario Sergio Conti, os discursos que ocorrerão a partir de amanhã podem estar “aquém da emergência de forças arcaicas e fanáticas, dos vagalhões migratórios, dos uivos de guerra e dos incêndios amazônicos”. E é aí que entra Jair Bolsonaro.

Bolsonaro, para quem não lembra, é aquele que chamou a ONU – que é sediada na Suíça e nos Estados Unidos – de “reunião de comunistas”. Bolsonaro é aquele que prometeu tirar o Brasil da entidade assim que fosse eleito presidente (Aloka!). Bolsonaro é também aquele que em nove meses de governo já conseguiu destruir pontes com os presidentes da França e da Noruega, com a chanceler da Alemanha, com a ex-presidente do Chile, e até com o provável futuro presidente da Argentina. Bolsonaro é aquele que conseguiu transformar o nosso maior ativo diplomático – a Amazônia – num passivo ambiental que aterroriza o mundo (principalmente o mundo ultra capitalista).

Por isso, esta é a primeira vez que o Brasil chega às Nações Unidas pressionado. Como cão que ladra no Twitter não costuma morder (pelo menos não quando está acuado, com o rabo entre as pernas, fora de casa), Bolsonaro prometeu fazer um discurso mais moderado, sem apologia à tortura, sem ataque aos direitos humanos, sem ofensa às mulheres, sem ódio à população LGBT, sem exaltação do belicismo, sem desprezo pelos nordestinos (ou seja: um discurso by Bolsonaro sem Bolsonaro).

Como escreveu o jornalista Fernando Gabeira, o presidente tem duas opções: “se falar o que pensa vai escandalizar, se falar o que não pensa, talvez não seja convincente”. É torcer, pelo bem do Brasil – e do planeta – que por um dia na vida, Bolsonaro diga o que não pensa.

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Para se blindar – de uma maneira, convenhamos, caricata -, Bolsonaro vai à ONU acompanhado de uma indígena

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A Assembleia Geral começa amanhã às 10h, e vai ser transmitida no site das Nações Unidas

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