Vazamento de óleo pode chegar em Abrolhoss

28/10/2019
_____

Do óleo ao caos, do caos ao óleo

Em 30 de agosto, turistas que estavam em uma praia no município de Conde, na Paraíba, avistaram uma mancha de óleo no mar. Alertaram a Capitania dos Portos, a Superintendência de Administração do Meio Ambiente da Paraíba, o Ibama e a Polícia Federal. Começou ali uma (nova) tragédia ambiental brasileira, que pode pôr em risco a vida marinha do país, e que diz muito sobre o comportamento do governo Bolsonaro “no tocante” à política ambiental.

A essa altura, o óleo já se espalhou por mais de 200 pontos de 81 municípios litorâneos. Foram registradas a morte de 23 tartarugas marinhas – número certamente subdimensionado, por não contabilizar as centenas ou milhares de animais que morreram e desapareceram no meio do mar. O Projeto Tamar deixou de soltar pelo menos 800 filhotes, por causa das manchas de óleo.

De acordo com a marinha, até o momento já foram retirados 525 toneladas de resíduo de óleo. A poluição atingiu paraísos naturais, como as praias de Maragogi e do Francês, em Alagoas, e de Carneiros, em Pernambuco – onde adentrou os manguezais. Pode resultar num desemprego gigante, com até 144 mil pescadores sem trabalho, e num baque na indústria do turismo, que movimentou R$ 29,1 bilhões no Nordeste no ano passado.

Se não vivêssemos no país da Vale – e por consequência, dos crimes de Mariana e Brumadinho – dizer-se-ia (sdds Temer) que essa é uma tragédia natural sem precedentes. Mas a existência de precedentes não atenua a gravidade do fato. Isso porque o Nordeste abriga a Costa dos Corais, segunda maior barreira de recifes do mundo, que se espraia por 130 km entre Alagoas e Pernambuco. E corais são os motéis da vida marinha, para onde peixes, crustáceos e moluscos vão a fim de se alimentar e, com sorte,  achar um parceiro para chamar de seu.

Se os corais ficassem em áreas profundas, teriam uma chance maior de sobrevivência, já que óleo e água não se misturam (ou seja, a substância vazada continuaria pairando sobre o mar, sem descer ao nível onde há mais riqueza de vida marinha). Mas como corais tendem a viver em áreas muito rasas, a baixa da maré faz com que o óleo penetre nos sedimentos, qual uma cobertura de concreto, sufocando toda a estrutura de calcário e de algas. Com a morte dos corais, morrem toneladas de animais.

Todo petróleo tem uma espécie de DNA, marcado em suas moléculas, que guardam informações a respeito da bacia hidrográfica de onde foi retirado. Por ora, sabe-se que óleo encontrado nas praias foi extraído na Venezuela, embora o governo venezuelano alegue não haver qualquer vazamento por lá. Mas como a ditadura de Nicolás Maduro enfrenta uma série de sanções econômicas dos Estados Unidos, uma hipótese considerável é de que o petróleo tenha sido comprado – e depois vazado, num acidente – por um navio pirata.

Mas o governo brasileiro tampouco está isento de responsabilidade, já que desde 2013 existe um programa, criado por lei, que prevê um trabalho integrado entre os ministérios do Meio Ambiente, de Minas e Energia e da Defesa, além do Ibama e da Agência Nacional do Petróleo para lidar com esse tipo de ocorrência. Só que o tal programa, chamado Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo (PNC), não foi acionado.

E mesmo se fosse, talvez não adiantasse muito. Lembra quando Bolsonaro extinguiu, em uma canetada, mais de 50 conselhos da administração pública? Pois dois deles faziam parte do PNC. O Comitê Executivo era responsável por elaborar um manual para situações de emergência. O Comitê de Suporte era encarregado de encontrar recursos e pessoas para as ações de resposta. Resultado: a limpeza precisou ser assumida pela Petrobras e pelos próprios moradores das praias.

Acontece que o governo não pode se limitar a limpar as praias; mais importante é impedir que as manchas cheguem ao litoral, o que poderia ter sido mapeado com ajuda do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (aquele que Bolsonaro sucateou no começo do mandato). Agora, além de não sabe de onde veio o óleo, o governo não consegue dizer, sequer, quanto dele ainda pode chegar nas praias. E a substância continua avançando rumo a Abrolhos, na Bahia, onde está o banco de corais de maior biodiversidade do Atlântico Sul.

E como reagiram Jair Bolsonaro e seu antiministro Ricardo Salles diante dessa tragédia? Como duas crianças mimadas que, incapazes, de construir, transformam a frustração em agressividade. Bolsonaro, num arroubo conspiratório (ou seria apenas má fé?), chegou a dizer que tinha “quase certeza” que o derramamento teria sido planejado para prejudicar o próximo leilão do pré-sal. Já o Ricardo Salles seguiu a cartilha do bom ministro lambe-botas que prospera no governo. A exemplo do seu chefe, acusou ONGs, como o Greenpeace, de não atuarem na limpeza (só esqueceu de mencionar que o Greenpeace é especializado em advocacy, e que a obrigação de evitar ou remediar um desastre ambiental É DO PRÓPRIO GOVERNO). O nome disso é canalhice.

Quer saber mais?
A Justiça Federal do Sergipe multou o governo em R$ 100 mil diários caso não sejam colocadas barreiras de proteção para evitar que os resíduos avancem sobre o rio São Francisco

Quer ouvir mais?
No último episódio do Foro de Teresina, o repórter Bernardo Esteves explicou a tragédia em detalhes

MemeNews é financiado pela Open Society Foundations, por meio de um projeto que pretende unir humor e mudanças sociais.