Wio de Waneiro: o Wild West de Wilson Witzels

16/09/2019
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A língua do W

Era uma vez um brasileirinho esforçado chamado Wilsinho.

Wilsinho era um menino aguerrido, que só queria estudar – em Harvard. Para tanto, contou com a ajuda de seis reis magos, que mesmo desavisados, o ajudaram a atravessar a dura provação do mestrado. Em seguida, deu-se o milagre, e Wilsinho passou seis meses na tão sonhada universidade americana, mesmo sem nunca tê-la visitado (quem nunca desejou tanto uma coisa a ponto de incluí-la no currículo lattes?).

Mas além de estudar, Wilsinho gostava de batata e de artefatos (de guerra). E por isso não mediu esforços quando sentiu passar uma brisa conservadora na porta de casa. Sem plano de governo, sem lastro político e sem plataforma clara para reerguer um estado falido, acabou eleito governador do Rio de Janeiro com a promessa primitiva de que a polícia teria carta branca para matar. E assim Wilsinho virou Wilson Witzel, o menino que só queria atirar.

O problema, à diferença de seu espelho (ou ex-espelho?) na esfera federal, é que Wilson Witzel não perde tempo indicando filho para embaixada americana, ou insultando esposa de presidente francês, ou desprezando dinheiro vindo da Noruega, ou xingando futuro presidente da Argentina, ou… (a lista é interminável).

Fato é que o estado do Rio de Janeiro tem a polícia que mais mata: no ano passado, foram 1.534 casos, maior número registrado desde que o dado passou a ser computado, em 1998. O ano de 2019 ainda não acabou, mas a contagem parcial aponta para uma piora. Entre janeiro e julho, 1.075 pessoas já foram mortas pela polícia, contra 899 no mesmo período do ano passado. Em contrapartida, Witzel divulgou que houve uma redução de 25% no número de homicídios. A ideia que tenta passar – e em larga medida consegue – é de que a polícia mata mais para que bandidagem mate menos. Parece fazer sentido.

Mas há algo de capcioso na conta de Witzel, como bem apontou o advogado e ativista Pedro Abramovay. É que apesar de o governo falar em redução de homicídios, o número de assassinatos segue praticamente igual, já que a queda foi compensada pelo aumento das mortes cometidas por policiais – que são computadas em outra categoria. “O Estado passou a matar mais. E tirou essas mortes da conta. Para se ter uma ideia, só na cidade do Rio a polícia foi responsável por 38% dos assassinatos”, escreveu Abramovay, no que definiu como “estatização dos homicídios”.

E onde ocorre essa política de assassinato estatizado? Em qualquer área que não seja controlada por milícia, segundo mapeamento feito pelo repórter Sérgio Ramalho para o UOL. Os dados são ululantes: nenhuma das 881 mortes causadas pela polícia fluminense no primeiro semestre envolveu territórios de facções paramilitares. O governo até fez operações contra milícias, mas com mandados de prisão e investigação, que é como como se enfrenta o crime organizado. Já contra a Cidade de Deus – que é dominada pelo Comando Vermelho – Witzel já disse que preferiria resolver o problema do crime de maneira, digamos, menos ortodoxa…

Míssil. Abate. Tiro na cabecinha. Wilson Witzel trata grande parte das favelas do Rio – onde moram milhares de pessoas honestas – como um país inimigo a ser dominado. Não se constrange em dizer que que snipers estão abatendo criminosos (o que configura execução, uma ilegalidade), e não se esforça para corrigir uma polícia que lança granada sobre uma comunidade. Só que essa política de matança cobra um preço: em agosto, seis jovens – nenhum deles criminosos – foram mortos a tiros, num intervalo de cinco dias, sendo três durante operações policiais. Margareth Teixeira, de 17 anos, carregava seu filho de 1 ano e 10 meses quando foi atingida.

Não se trata, aqui, de defender o crime organizado. Trata-se defender o mínimo de dignidade; de lutar para que inocentes não sejam mortos pelo estado; de pedir que tráfico e milícia sejam tratados da mesma forma. O problema pode parecer algo circunscrito ao Rio, mas como no Brasil atual a sociopatia virou um asset político, o Bolsonaro de hoje pode, infelizmente, ser o Witzel de amanhã.

Quer saber mais?
Neste ano, a proporção de negros e pardos mortos pela polícia fluminense aumentou 

E como anda a violência policial no resto do Brasil?
O Aos Fatos ilustrou os principais dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado na semana passada

Não entendeu o porquê do nome Wilsinho?
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