18/02/2019

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Carreta Furacão Damares

Você conhece o Furacão Damares? Trata-se de um evento climático radical, que costuma atingir o país de mês em mês – e que tende a coincidir com momentos de temperatura elevada no governo Bolsonaro.

O exemplo mais recente ocorreu na semana passada, quando começou o processo de fritura do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno.

Podem ter sido os astros, a Lua, o movimento das marés, ou o aquecimento global (mesmo que certas pessoas o considerem “secundário”). Fato é que o imbróglio político acabou coincidindo com mais uma aparição do furacão. Nesta última, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos deu a entender que o seu ministério terá dificuldade em defender a mulher, a família e os direitos humanos. “Se eu tivesse que dar um conselho para quem é pai de menina, mãe de menina, era ‘Foge do Brasil‘”, disse, para mostrar como é grave a situação de violência contra a mulher.

Em defesa da ministra, ela também disse, e com razão, que é necessário haver uma “revolução cultural” de forma a que as pessoas aprendam a combater a violência contra a mulher desde a escola: “Não adianta eu fazer só a repressão.”

Mas o que realmente importa, aqui, é uma frase dita por Damares Alves seis anos atrás – e desenterrada pela imprensa, em janeiro, quando ela foi convidada para o governo Bolsonaro: “A igreja evangélica perdeu espaço na história. Nós perdemos um espaço na ciência, quando deixamos a Teoria da Evolução entrar nas escolas.”

A Teoria da Evolução foi proposta pelo naturalista britânico Charles Darwin no século 19, após décadas observando animais, plantas, fósseis e eventos geológicos mundo afora. A ideia é de uma simplicidade sublime: todos os seres vivos – de uma bactéria a um elefante, de uma joaninha a uma árvore – descendem de um ancestral comum, e estão aqui porque evoluíram em formas distintas durante milhões de anos, de forma a se adaptar às diferentes condições do ambiente.

(A teoria não vale para o chiuaua, que só existe por ter sido uma invenção perversa de alguns humanos que queriam infernizar a vizinhança.)

Uma das premissas do Darwinismo é que os indivíduos mais adaptados à determinadas condições geram filhotes, que sobrevivem e se reproduzem mais do que aqueles menos  adaptados, não necessariamente apenas aqueles maiores e mais fortes. O beija-flor, por exemplo, é um dinossauro. E quando um asteroide tocou o terror na Terra, há 65 milhões de anos, quem resistiu não foi o maioral.

O sucesso da teoria evolutiva fez com que ela logo fosse aplicada às ciências sociais, criando, ainda no século 19, o conceito de Darwinismo Social. A lógica – que acabaria desaguando nas ideias de Adolf Hitler – era igual: de que a vida em sociedade privilegia os mais aptos, que não são os mais inteligentes, nem os melhores (e tome Donald Trump no comando do mundo para comprová-la).

A exemplo de Trump, Jair Bolsonaro parece ter sido um candidato talhado pela evolução. Dez anos atrás, sua verve agressiva lhe reservava apenas um lugar pitoresco no baixo clero da Câmara. Mas a expansão do Facebook, o descrédito vivenciado pela imprensa, e a debacle econômica e moral dos governos petistas acabaram por criar um ambiente perfeito para os Homo sapiens que sofriam de incontinência verbal. O ônus tornou-se bônus.

Mas o ecossistema de uma campanha não é igual ao de um governo federal. E, passados 50 dias da posse, Bolsonaro ainda parece ter dificuldade de se adaptar à nova realidade.  O presidente que recebe seus ministros no Palácio do Planalto usando chinelo e uniforme de futebol falsificado não é presidente; é candidato. O presidente que frita um ministro publicamente, e o demite por pressão do pimpolho também é candidato. O problema, como escreveu Fernando Henrique Cardoso, é que o caso acaba respingando em quem não merece: “Problemas sempre há, de sobra. O presidente, a família, os amigos e aliados que os atenuem, sem soprar nas brasas. O fogo depois atinge a todos, afeta o país.”

Não se trata aqui de fazer uma defesa de Gustavo Bebianno – não mesmo. Trata-se de fazer o presidente entender que a lógica “lacrativa” do candidato não se adequa aos ritos exigidos pelo maior cargo da República. Pelo bem das instituições – e pela prevenção a uma nova tempestade da Carreta Furacão Damares -, o presidente bem que podia se valer de alguns conceitos de Darwin.

Quer saber mais?
Neste vídeo de cinco minutos, o naturalista Sir David Attenborough faz um resumo da revolução provocada por Charles Darwin

Quer se aprofundar?
O site Darwin Online tem uma série de manuscritos – inclusive os que documentam a passagem dele pelo Brasil

Quer ir direto na fonte?
Você pode baixar o PDF de A Origem das Espécies, a obra seminal de Darwin

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